Vilarejo cearense vive retorno gradual após um ano sem mortes, mas o trauma da saída em massa persiste
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Vilarejo cearense vive retorno gradual após um ano sem mortes, mas o trauma da saída em massa persiste

Há um ano, o distrito de Uiraponga, em Morada Nova, no interior do Ceará, não registra assassinatos. Um marco significativo que reflete o reforço na segurança e outras ações de melhoria implementadas na região. Contudo, essa conquista, por si só, ainda não foi suficiente para convencer todos os ex-moradores a retornarem de vez ao vilarejo que, em 2025, vivenciou uma saída em massa de famílias, forçadas a deixar suas casas devido à intensa disputa entre facções criminosas.

Localizada a 23 quilômetros da sede do município, a comunidade de Uiraponga está imersa em um processo de retorno gradual. A população, que em julho de 2025 partiu às pressas após ameaças de criminosos, agora começa a ensaiar um regresso. Segundo a prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), um levantamento realizado por nove agentes de saúde aponta que mais de 80 famílias já voltaram para o vilarejo, com uma intensificação desse movimento a partir de junho deste ano. No entanto, a volta é complexa, permeada por sentimentos de esperança e, ao mesmo tempo, de profunda incerteza.

A Memória da Fuga Forçada: quando o medo esvaziou Uiraponga

O ano de 2025 marcou Uiraponga com um dos episódios mais dolorosos de sua história recente: os “deslocamentos forçados”. Termo utilizado pela Secretaria da Segurança Pública do Ceará para descrever os crimes em que grupos criminosos expulsam moradores de suas residências, essa realidade se impôs brutalmente sobre as famílias do distrito. A ação criminosa gerou um êxodo repentino, desestruturando a vida de centenas de pessoas que, de uma hora para outra, viram-se obrigadas a abandonar tudo.

A resposta das autoridades veio com a prisão de 13 criminosos envolvidos nesses atos. Entre os detidos, destaca-se um homem apontado como um dos mandantes dos crimes na região, capturado em São Paulo. Essa operação policial foi crucial para desarticular parte da rede criminosa e, consequentemente, para a pacificação gradual do local. Contudo, a cicatriz deixada pela violência e a memória daquela fuga ainda são palpáveis, influenciando as decisões de quem um dia chamou Uiraponga de lar.

O Retorno Gradual: entre a afetividade e a incerteza de um novo lar

Apesar dos avanços na segurança, a decisão de retornar definitivamente é um dilema para muitos. Maria José do Nascimento, conhecida como “Mazé”, de 63 anos, é um exemplo dessa complexidade. Há dez meses, ela deixou a residência onde sempre viveu em Uiraponga para morar com a filha em Limoeiro do Norte. Sua partida foi um dos últimos capítulos daquele período sombrio. “Foi doído! Uma das últimas que saiu fui eu. Todo mundo saiu chorando”, relembra Mazé, com a voz carregada de emoção.

Diferente das mais de 80 famílias que já se restabeleceram, Mazé se divide entre as duas casas, passando temporadas em Uiraponga e outras em Limoeiro do Norte. Ela visita a comunidade por afetividade, para “olhar a casinha”, mas ainda não tem previsão de um retorno definitivo. “Quando o pessoal pergunta se vou voltar, eu digo que não sei, não vou dizer nada. Não posso dizer que não volto mais, pois nasci e me criei aqui, nunca esqueço. Não estou confirmada de voltar agora não. Quem sabe? Deus que sabe”, reflete, expressando a profunda ambivalência que muitos ex-moradores compartilham.

Uiraponga em Transformação: o futuro entre a esperança e as cicatrizes do passado

O processo de “ir e voltar” de Uiraponga não é novidade para José Bento Neto, um aposentado que deixou o distrito na juventude para trabalhar em Fortaleza, mas sempre manteve um vínculo forte com a comunidade. “Saí daqui para trabalhar fora, mas nunca passei um ano sem andar aqui”, afirma. Ele estava se preparando para a Festa de Nossa Senhora do Livramento, padroeira do distrito, que foi cancelada em 2025 devido à crise. Sua perspectiva, contudo, é de otimismo.

José Bento acredita que as obras e melhorias em andamento trarão um futuro mais promissor para o vilarejo. “Já melhorou muito e vai melhorar mais ainda”, diz ele, apontando para a resiliência e a capacidade de superação da comunidade. A presença de um mural feito pela artista Jane Tatielly, natural do vilarejo, simboliza essa busca por renovação e identidade. O desafio agora é transformar a ausência de assassinatos em uma sensação plena de segurança e pertencimento, capaz de apagar as marcas de um passado recente de medo e incerteza, e reconstruir a confiança para um retorno completo e duradouro.

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