Foto: Thiago Gadelha/SVM
Foto: Thiago Gadelha/SVM
Foto: Thiago Gadelha/SVM

Fortaleza se prepara para marcar uma década desde a chegada dos aplicativos de transporte, um período que transformou a mobilidade urbana e redefiniu o mercado de trabalho para milhares de pessoas. Em 2026, a capital cearense celebra os dez anos do início das operações de plataformas como Uber e 99, um marco que, para muitos motoristas, representa um complexo equilíbrio entre a busca por lucro e a dura realidade da falta de garantias trabalhistas e desafios crescentes.

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2025 e referentes a 2024, revelam que o Brasil contava com 1,7 milhão de trabalhadores atuando por meio de plataformas digitais e aplicativos. Desse total, impressionantes 58,3% – o equivalente a 964 mil pessoas – dedicavam-se especificamente ao transporte de passageiros. Em comum, esses profissionais frequentemente registram uma renda acima da média nacional, mas também enfrentam uma carga horária de trabalho significativamente maior do que os celetistas, sem os benefícios e a segurança de um vínculo empregatício tradicional.

A Década dos Aplicativos: Ascensão e Transformação do Trabalho

A Uber iniciou suas operações em Fortaleza em 29 de abril de 2016, com a modalidade UberX. No ano seguinte, a 99 também chegou à cidade, expandindo as opções de transporte por aplicativo. Em 2021 e 2022, respectivamente, ambas as plataformas introduziram o serviço de transporte por motocicletas, ampliando ainda mais o alcance e a diversidade dos serviços.

Essa ascensão não foi isenta de desafios. Inicialmente, o serviço funcionava de forma irregular, resultando em apreensões de veículos por parte do poder público. A situação mudou em 2018, quando a Prefeitura de Fortaleza promoveu a regularização do segmento, conferindo maior segurança jurídica tanto aos motoristas quanto aos passageiros. Em uma década, o que era visto como uma novidade e, por vezes, uma atividade marginal, tornou-se um pilar indispensável da mobilidade urbana na capital cearense.

O Equilíbrio Delicado: Renda Acima da Média e Custos Crescentes

A promessa de flexibilidade e ganhos atrativos seduziu muitos a trocarem empregos formais pela rotina de motorista de aplicativo. Felipe Albuquerque, que há cerca de quatro anos atua na área, é um exemplo. Ele deixou um emprego CLT como técnico de instalação em uma empresa de telefonia devido às condições de trabalho. Iniciou vendendo uma moto e alugando um carro, e hoje, com veículo próprio, afirma ganhar duas ou três vezes mais do que recebia anteriormente. No entanto, Felipe ressalta a ausência de seguridade social, os altos custos de manutenção e combustível, e a falta de férias desde que começou a rodar.

A pedagoga Katiuse Sabino, motorista de aplicativo há nove anos, compartilha uma visão semelhante. Ela trocou a sala de aula pelo asfalto, valorizando a autonomia para definir seus horários. “A gente tem a opção de trabalhar, de fazer o nosso horário certo”, afirma. Contudo, ela enfatiza a necessidade de uma organização financeira rigorosa para que a atividade seja viável. “O aplicativo, ele paga pouco, né? Mas se você tiver uma organização financeira, se você equilibrar as suas contas, sim. Dá pra você viver do aplicativo, sim.”

A percepção de que os lucros têm diminuído é unânime entre os motoristas entrevistados. Eles apontam a defasagem no valor da tarifa cobrada do passageiro, o aumento na proporção da taxa retida pelas empresas e a escalada dos custos de manutenção e combustível como fatores cruciais. “Os valores das corridas estão defasados, a gente não tem um reajuste. Há muito tempo, a gasolina subiu, a inflação estourou, todas as peças de manutenção de todos os carros estão caras”, lamenta Felipe, que acredita que hoje o motorista ganha menos do que em 2019 ou 2020.

Uma pesquisa divulgada em 2025 pela fintech GigU, especializada em finanças para motoristas de aplicativo, revelou que o faturamento mensal médio em Fortaleza era de cerca de R$ 6.428,57, para uma jornada de 55 horas semanais. Contudo, aproximadamente 54% desse valor era consumido por gastos com gasolina e manutenção, resultando em um lucro líquido de cerca de R$ 2,9 mil. Para efeito de comparação, a renda média mensal dos trabalhadores do Ceará, segundo a PNAD Contínua do IBGE em 2024, era de R$ 2.071.

Segurança e Regulação: Desafios Persistentes nas Ruas

Além das questões financeiras, a segurança é uma preocupação constante para os motoristas de aplicativo. Katiuse Sabino vivenciou um incidente traumático em outubro de 2024, quando um passageiro a importunou sexualmente. O episódio a levou a parar de trabalhar por meses e, ao retornar, a optar por pegar apenas passageiras mulheres. A situação reacendeu os temores que a acompanham desde março de 2017, quando começou a rodar.

A violência urbana no Ceará tem impactado diretamente a categoria. Dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), órgão vinculado à Secretaria de Segurança do Ceará, indicam que entre 2019 e 2025, pelo menos 52 motoristas por aplicativo foram mortos enquanto trabalhavam no estado. Os números anuais mostram a gravidade do problema: 1 homicídio em 2019, 12 em 2020, 5 em 2021, 5 em 2022, 8 em 2023 e 12 em 2024, evidenciando uma flutuação, mas uma persistência da violência.

A Voz da Categoria: Associações e a Luta por Condições Justas

A Associação de Motoristas por Aplicativo do Ceará (AMAP-CE) tem sido uma voz ativa na defesa dos direitos da categoria. Evans Souza, presidente da associação e motorista desde 2016, antes atuava como editor de vídeo. Ele observa uma queda drástica nos rendimentos. “Quando o motorista começou [10 anos atrás], a média salarial dele era em torno de 12 mil reais, quando começou o boom dos aplicativos aqui em Fortaleza. Hoje, essa média, eu acho que ela caiu quase 50%”, aponta Evans, estimando que um motorista “sobrevivente” hoje fatura entre R$ 5 mil e R$ 6 mil.

Evans argumenta que o valor repassado ao motorista é injusto, citando a redução da corrida mínima de R$ 6,75 para R$ 5,80, enquanto a porcentagem retida pelos aplicativos varia entre 30% e 60% do valor da corrida. A AMAP-CE defende que uma taxa justa estaria entre 20% e 25%. Para ele, embora a chegada dos aplicativos tenha inicialmente “trazido mais dignidade para muitas pessoas que não tinham oportunidade de um trabalho digno”, o cenário atual exige melhorias urgentes para garantir a sustentabilidade e a justiça para a categoria.

Acompanhe o News BV para mais reportagens aprofundadas sobre o impacto social e econômico das plataformas digitais e outros temas relevantes que moldam a nossa realidade. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, atual e contextualizada.

Destaques 

Relacionadas

Menu