ta do Cariri", recebeu os primeiros habitantes a partir de uma beleza natural qu
Reprodução G1
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Conhecida carinhosamente como a ‘Porta do Cariri’, Missão Velha, no Ceará, é um município que carrega em suas raízes uma história rica de pioneirismo, fé e uma luta contínua pela preservação de seu valioso patrimônio. Fundada há 278 anos, a cidade se destaca não apenas por suas belezas naturais, como a cachoeira que lhe dá nome, mas também por ter sido um dos primeiros povoados da região a receber missões católicas e a erguer templos imponentes que resistem ao tempo.

Com uma população de quase 37 mil habitantes, Missão Velha celebra anualmente sua criação, embora as datas de fundação do município (28 de janeiro de 1748) e de sua emancipação oficial (8 de dezembro de 1864) sejam distintas. Essa dualidade reflete a complexidade de uma história que se desdobra desde o início do século 18, quando os primeiros colonizadores vislumbraram na região um oásis promissor.

O Berço do Cariri e Suas Origens Pioneiras

A história de Missão Velha remonta a 1707, quando o baiano João Correia Arnaud, descendente de Caramurus, chegou às proximidades da cachoeira local. Atraído pela febre do ouro que circulava na época, Arnaud encontrou um cenário que descreveu como um verdadeiro oásis no Cariri. Ele retornou com sua família, estabelecendo ali o que historiadores consideram a primeira construção civil da região: uma casa à beira da cachoeira.

Esse assentamento inicial não apenas marcou o início do povoamento, mas também lançou as bases para o desenvolvimento de uma comunidade que, ao longo dos séculos, se tornaria um ponto crucial para a cultura e a religiosidade do Cariri cearense. A beleza natural da cachoeira continua a ser um atrativo, conectando o passado pioneiro ao presente turístico da cidade.

A Fé que Moldou a Identidade de Missão Velha

O nome ‘Missão Velha’ é um testemunho direto do pioneirismo católico na região. Com a chegada dos primeiros colonizadores, vieram também os missionários capuchinhos italianos, que estabeleceram a primeira missão no vilarejo. Esse marco garantiu à cidade o título de ‘mãe da evangelização no Cariri’, um reconhecimento de sua importância na disseminação da fé.

A paróquia de Missão Velha, criada em 28 de janeiro de 1748, foi a primeira freguesia do Cariri, desmembrada de Icó. Inicialmente dedicada a Nossa Senhora da Luz, a padroeira passou a ser São José a partir de 1760. A Igreja Matriz, construída sobre um terreno brejeiro, passou por transformações significativas. Após a queda de sua fachada original, foi reconstruída com alicerces robustos e uma arquitetura imponente, inspirada nas igrejas de Roma, com arcos, colunas e portas altas que denotam grandiosidade.

Outro ícone da fé local é a Capela de Santo Antônio, no distrito de Missão Nova, que completa 301 anos em 2025. Considerada por historiadores como o primeiro templo católico do Cariri, a capela é um local de profunda devoção, onde a história de renúncia e serviço do santo inspira fiéis como Cícero Ferreira dos Santos, voluntário do local.

Casarões e Fortalezas: Testemunhos da História Local

Além dos templos religiosos, Missão Velha guarda em suas terras casarões que contam capítulos importantes da história social e econômica do Cariri. No distrito de Missão Nova, um casarão do século 19, que pertenceu a Antônio Ageu Araruna, um influente latifundiário e figura política da época, destaca-se. A propriedade, que abrigava um engenho e plantações de cana, é um elo com o período do trabalho escravo e o domínio econômico dos coronéis.

No centro da cidade, a Casa da Família Pita, datada de 1904, é um registro da linhagem que gerou figuras notáveis, como os padres Francisco de Assis e Lauro Pita, e o industrial Antônio Pita, fundamental para a emancipação de Juazeiro do Norte. Mais adiante, na Rua Francisco Basílio, um casarão de 1927, que foi residência do primeiro prefeito de Missão Velha, Isaías Arruda, esconde um bunker fortificado em estilo alemão. Essa estrutura revela a complexidade da época, marcada por disputas de poder e a necessidade de proteção contra inimigos, evidenciando a influência e o caráter controverso de Arruda, que chegou a ser amigo e inimigo de Lampião.

A Estação Ferroviária e o Legado do Progresso

Um dos símbolos arquitetônicos do desenvolvimento de Missão Velha é a antiga Estação Ferroviária. Inaugurada em 1925 como parte da Estrada de Ferro de Baturité, a estação transformou-se no coração da cidade, atraindo galpões de algodão e indústrias. O trem não apenas transportava mercadorias, mas também passageiros, conectando Missão Velha à capital e impulsionando a expansão urbana do município.

A estrutura da estação passou por reformas significativas ao longo dos anos. Enquanto registros fotográficos de 1926 mostram um estilo mais eclético, com arcos arredondados, a edificação atual, datada de 1945, reflete o estilo Art Déco, com linhas retas e modernas, característico da arquitetura da época no Ceará e no Brasil. Após a desativação do transporte ferroviário de passageiros no final dos anos 1980 e um período de abandono, a estação abrigou a biblioteca municipal entre 2008 e 2012. Atualmente, passa por uma reforma para se transformar em um complexo turístico, prometendo revitalizar esse espaço tão emblemático para a memória local.

O Desafio da Preservação e o Apelo à Memória

Apesar da riqueza histórica, Missão Velha enfrenta desafios na preservação de seu patrimônio. Muitos casarões históricos, como os da Família Pita e de Isaías Arruda, estão desabitados. Historiadores e ativistas lutam para que a casa do primeiro prefeito seja transformada em museu, mas a propriedade particular dificulta o consenso. A historiadora Célia Magalhães faz um apelo aos gestores municipais para que cuidem dos prédios, ressaltando que cada parede e tijolo guardam as histórias de pessoas que construíram suas vidas ali. A luta pela memória arquitetônica é uma pauta constante no Cariri.

O município ainda não possui um levantamento completo de seus imóveis históricos. O secretário de Cultura e Turismo, Vicente de Paulo Ribeiro Silva, reconhece as dificuldades com as famílias proprietárias, mas aponta que o mapa do turismo está abrindo portas para o resgate dessas histórias. Em parceria com outras instituições, um estudo está em andamento para catalogar todos os prédios e desenvolver um projeto que os inclua no roteiro turístico, visando dar maior visibilidade e vida a esses importantes testemunhos do passado de Missão Velha.

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