Foto: Thiago Gadelha/SVM
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O distrito de Uiraponga, localizado no município de Morada Nova, no interior do Ceará, emerge de um período de esvaziamento que o transformou em um verdadeiro território-fantasma. Um ano após a saída em massa de moradores, expulsos por disputas entre facções criminosas, a comunidade vive agora um processo de retorno gradual da população e de revitalização, embora a normalidade de antes ainda não tenha sido plenamente restabelecida.

A situação de Uiraponga, que ganhou destaque nacional pelos episódios de violência, é acompanhada de perto pelas autoridades e pela própria população. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) informou que, em um ano, não houve registro de homicídios no distrito, um dado que reflete o reforço no policiamento e a prisão de 13 suspeitos de envolvimento nas expulsões.

Segurança Reforçada e o Debate Político em Uiraponga

A segurança no distrito foi um dos pilares para o início do processo de retomada. Com a instalação de uma base fixa e o reforço do policiamento, as autoridades buscam garantir um ambiente mais seguro para os moradores que decidem retornar. Essa medida é crucial para reverter o cenário de medo que levou centenas de famílias a deixarem suas casas.

Apesar dos esforços, a situação de Uiraponga também se tornou palco de debate político. Recentemente, o deputado federal André Fernandes (PL) acusou o Governo do Ceará de utilizar “moradores fakes” para simular a volta da população, alegando que o local permanecia como uma “cidade-fantasma”. A prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB), rebateu as acusações, afirmando que mais de 80 famílias já retornaram, conforme levantamento de agentes de saúde locais, com intensificação do processo a partir de junho de 2026.

A Vida Cotidiana e o Retorno das Famílias

A reportagem do News BV esteve em Uiraponga e pôde observar a dinâmica do retorno. Nas ruas principais, a movimentação é visível: moradores sentados nas calçadas, conversas em frente ao bar reaberto e crianças brincando na praça. No entanto, o cenário muda nas vias secundárias, onde muitas residências permanecem fechadas e a circulação de pessoas é significativamente menor. Essa dualidade se acentua ao anoitecer, com as ruas principais iluminadas e ativas, enquanto as secundárias permanecem escuras e desabitadas.

Marcas de tiros em algumas fachadas ainda servem como lembretes do período mais violento, embora muitos moradores já tenham realizado reparos em suas casas. A auxiliar de serviços gerais Cínthia Paula Silva Oliveira, de 40 anos, é um exemplo. Ela precisou deixar Uiraponga em julho de 2025, mas retornou em março deste ano, impulsionada pelo reforço policial e pela reabertura do posto de saúde onde trabalha. “Nos primeiros dias, quando eu voltei, a gente sentava nas calçadas, mas não tinha mesmo ninguém. Você olhava para cima e para baixo e não via uma pessoa. Tinha morador, nunca ficou sem, mas eram poucos. Você não via esse trânsito de gente, hoje é outra realidade”, relatou Cínthia, que rejeita o rótulo de “cidade-fantasma”.

Comércio e Serviços Públicos: Sinais de Revitalização

O comércio local, duramente atingido pela violência, também demonstra sinais de recuperação. Antes dos confrontos, Uiraponga contava com diversos estabelecimentos e duas padarias. Durante a visita da reportagem em julho de 2026, apenas duas mercearias e um bar estavam em funcionamento. Um desses estabelecimentos nunca fechou, com a proprietária optando por permanecer no distrito. “Tudo o que a gente tem é aqui. Tudo o que a gente construiu é aqui. Como é que a gente iria sair assim de repente?!”, questionou a comerciante, que preferiu não ser identificada.

Francisco Cleto de Oliveira, de 63 anos, reabriu seu bar, que funcionou por mais de 20 anos, em março de 2026, após ter se mudado para a sede do município. Ele já percebe uma melhora nas vendas: “Quando cheguei aqui estava pouca gente, depois foi melhorando. Já melhorou muito, estou vendendo mais do que quando eu estava aqui antes”. Aurino Bento, de 65 anos, também viu no comércio uma oportunidade, abrindo uma mercearia há cinco meses. “Decidi voltar por esse motivo, nasci aqui, me criei aqui, sou feliz aqui. O movimento não é muito, mas dá para ‘ir levando’”, disse com entusiasmo.

Os serviços públicos também são essenciais para a retomada. O posto de saúde, que chegou a ser transferido, voltou a funcionar diariamente em março, oferecendo atendimento médico, de enfermagem e odontológico, um avanço significativo em relação ao funcionamento quinzenal ou semanal anterior.

Infraestrutura e o Olhar para o Futuro do Distrito

O professor e articulador cultural Jonh Darly, que morou no distrito até julho do ano passado, defende que Uiraponga está em um “processo de retomada” impulsionado não apenas pela segurança, mas também por intervenções de infraestrutura e eventos culturais. O vilarejo está recebendo obras em parceria com o Estado, incluindo pavimentação asfáltica e instalação de piso intertravado, que prometem melhorar a qualidade de vida dos moradores e a acessibilidade.

Jonh Darly, que ainda não retornou em definitivo, mas visita o local diariamente, ressalta a importância de respeitar a decisão de cada um: “A gente nunca quis sair aqui, mas infelizmente precisou. Quem está se sentindo à vontade vai voltar, e a gente precisa respeitar também quem não quer voltar”. A perspectiva é que, com a continuidade dos investimentos em segurança e infraestrutura, e o fortalecimento do comércio e serviços, Uiraponga possa, aos poucos, reconstruir sua comunidade e superar os traumas do passado. Para mais informações sobre a situação no Ceará, acesse g1.globo.com/ce/ceara/.

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