Ceará tem vila soterrada por areia das dunas Arte/g1
Ceará tem vila soterrada por areia das dunas Arte/g1
Ceará tem vila soterrada por areia das dunas Arte/g1

No coração do litoral oeste do Ceará, um dos destinos turísticos mais cobiçados do Brasil, a praia de Tatajuba, em Camocim, guarda uma história de resiliência e transformação. Sob as imponentes dunas, que hoje atraem milhares de visitantes, jazem os vestígios de uma comunidade inteira, soterrada pelo avanço implacável da areia há mais de quatro décadas. A antiga vila de pescadores e agricultores, que prosperou entre os anos 1970 e 1980, foi gradualmente engolida, forçando seus moradores a um êxodo e ao recomeço em novas terras.

Essa narrativa de um povo que se adaptou à força da natureza é um testemunho da dinâmica costeira cearense e dos desafios impostos pelo desenvolvimento. Tatajuba, que hoje faz parte da famosa Rota das Emoções, ao lado de Jericoacoara e do Delta do Parnaíba, é um cenário de beleza singular, mas também de uma complexa interação entre o homem e o meio ambiente, onde o passado se mistura com a especulação imobiliária e a busca por um futuro sustentável.

A Memória Sob as Dunas de Tatajuba: Um Passado Engolido

A história da antiga Tatajuba remonta ao início do século XX, quando os primeiros núcleos familiares começaram a se formar. Moradores mais antigos, como o pescador João Batista de Paula, conhecido como João ‘Errado’, 78 anos, testemunharam a vida vibrante da vila. Ele lembra do desespero dos vizinhos quando as dunas começaram a avançar. “Lá tinha uma vila de pescadores, a duna foi cobrindo e o pessoal saiu e fizeram essa que se chama Vila Nova. A duna foi cobrindo tudo (…), não deu para salvar nada”, relata.

A comunidade era próspera e bem estruturada, maior até mesmo que o antigo Serrote, que viria a se tornar a internacionalmente famosa Jericoacoara. João Batista dos Santos, o Tita, pescador cuja mãe precisou deixar sua casa ainda grávida, relembra o que ouvia dela: “Já era uma vila muito grande na época. Era maior do que o antigo Serrote, que hoje é Jericoacoara, muito famosa internacionalmente. Naquela época já existia igreja, posto policial, colégio, as pessoas estudavam. Os festejos de lá eram os maiores dessa região. Era uma vila muito grande, que se não tivesse soterrada, hoje era quase uma cidade”. A igreja, a escola e o posto de saúde foram algumas das primeiras construções a desaparecerem sob a areia, em um processo gradual que marcou a década de 1970.

A Ciência por Trás do Fenômeno Natural

O soterramento da vila de Tatajuba não foi um evento isolado, mas sim o resultado da interação entre a ocupação humana e um fenômeno natural característico do litoral cearense: as dunas móveis. O professor Jeovah Meireles, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), que estuda a região há 26 anos, explica que as dunas móveis são ecossistemas dinâmicos, comuns em áreas desprovidas de vegetação, onde os ventos movem grandes volumes de areia.

Em Tatajuba, as dunas se destacam por suas formas e tamanhos variados, incluindo a impressionante Duna Encantada, com cerca de 30 metros de altura e uma área de 120.000 m², acumulando aproximadamente 140.000.000 m³ de areia. A vila foi construída em um “tabuleiro”, uma área mais alta e plana, diretamente na rota natural de migração dessas dunas. “Ali, as dunas maiores podem migrar até 12, 15 metros por ano. Mas, as dunas menores podem migrar até 30 metros por ano”, detalha Jeovah. Os ventos, mais fortes no segundo semestre, transportavam a areia da praia para o interior, e a vila, funcionando como uma barreira física, acabou por ser engolida, com a areia preenchendo ruas, corredores e até as cacimbas, os poços de água da comunidade.

O Renascimento e os Desafios da Nova Tatajuba

Após o soterramento, os moradores da antiga Tatajuba buscaram refúgio em comunidades vizinhas, dando origem ao que hoje é o distrito de Tatajuba. Este novo território, reconhecido oficialmente em 12 de novembro de 2025, pela Lei Municipal nº 1716/2025, é composto por quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco. Angelaine Alves, presidente da Associação de Moradores de Tatajuba (Acomota) e companheira de Tita, lembra: “Em 1978, saíram as últimas famílias e vieram para Vila Nova. Lá tinha igreja, casas, comércios. Com a chegada das dunas, ficou tudo debaixo das areias. Teve um tempo que os vestígios da antiga igreja [vieram à tona]. Hoje tem várias pessoas morando lá. Depois do soterramento, começou outra formação de vila, que se chama São Francisco”.

Apesar de estar inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), redefinida em abril deste ano, a nova Tatajuba absorve parte do fluxo turístico de Jericoacoara. Em 2025, Camocim, a cidade onde Tatajuba está localizada, recebeu 892.251 turistas. Esse “hype” turístico, no entanto, gera preocupações entre os moradores, que temem os efeitos negativos sobre o meio ambiente, a pesca artesanal e a agricultura local, pilares de sua subsistência e cultura.

A Luta pela Terra e a Busca por Sustentabilidade

A história de Tatajuba não se encerra com o soterramento. Nos anos 2000, os moradores se depararam com uma nova ameaça: a descoberta de que o terreno de suas vilas havia sido comprado por uma grande empresa de turismo. O projeto era ambicioso: construir um “condado ecológico” com cinco campos de golfe, o que implicaria na expulsão das famílias. Diante disso, a Acomota, presidida por Angelaine, entrou com dois processos na Justiça para interditar as construções e anular as matrículas de terra. Esse imbróglio legal, que se arrasta por mais de duas décadas, ainda aguarda resolução.

Para a professora de História Sheila Abreu, que vive em Tatajuba há cinco anos, é fundamental compreender a natureza mutável da região. “O estilo de vida requer que compreendamos essa mutabilidade, para que a gente não sofra danos e que a gente não cause danos também à natureza. A gente não consegue parar a natureza, a gente pode até tentar, mas a gente não consegue. O que a gente pede para as pessoas é que elas compreendam o modelo de natureza que a gente tem, para que a gente tenha construções e ocupações sustentáveis. Dentro de uma área onde tudo é transitável, a gente não pode ter uma estrutura rígida, sólida”, afirma. A regularização das terras e a busca por um desenvolvimento que respeite tanto a natureza quanto a comunidade local são os próximos capítulos dessa história de resistência e adaptação.

A trajetória de Tatajuba é um lembrete vívido da força da natureza e da resiliência humana. Entre as dunas que moldam sua paisagem e a luta por sua identidade, a comunidade de Tatajuba continua a escrever sua história, buscando um equilíbrio entre a preservação de suas raízes e os desafios do mundo moderno. Para acompanhar de perto as notícias e análises sobre temas relevantes como este, continue navegando no News BV, seu portal de informação atualizada e contextualizada.

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