A investigação em torno da gigantesca plantação de maconha descoberta em Acopiara, no interior do Ceará, ganhou novos capítulos com a prisão de dois homens suspeitos de envolvimento na logística da operação. A dupla, de 21 e 47 anos, foi detida em Orós, a cerca de 96 quilômetros de Acopiara, sob mandados de prisão temporária por tráfico de drogas e associação para o tráfico. As identidades dos presos não foram divulgadas pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS).
A apreensão, que totalizou cinco toneladas da droga e cerca de 290 mil pés de maconha, é considerada uma das maiores da história do estado. O caso, porém, transcendeu a esfera da repressão ao tráfico e se transformou em uma complexa teia de denúncias, apurações internas e embates políticos, levantando questões sobre a integridade dos procedimentos policiais e a fiscalização de grandes operações.
As prisões e a logística do tráfico de drogas
Os dois indivíduos capturados são apontados como peças-chave na intrincada rede que sustentava a fazenda de maconha. A ação policial que culminou nas prisões busca desvendar como a plantação era gerenciada, desde o cultivo em larga escala até a distribuição da droga. A investigação se concentra agora em mapear os elos dessa cadeia criminosa, que envolve não apenas os cultivadores, mas também aqueles que fornecem insumos, transportam e comercializam o material ilícito.
A natureza dos mandados de prisão temporária indica que as autoridades ainda estão em fase de coleta de informações e provas, buscando consolidar o entendimento sobre a estrutura e o funcionamento da organização criminosa por trás da megaplantação. A colaboração dos detidos, ou a análise de evidências encontradas, será crucial para avançar na elucidação dos demais envolvidos.
A megaplantação de maconha e a polêmica inicial
A descoberta da plantação em 25 de junho deste ano chocou o Ceará pela sua dimensão. No entanto, o que deveria ser um sucesso incontestável da segurança pública rapidamente se tornou alvo de controvérsia. O deputado federal André Fernandes (PL) denunciou publicamente que o local havia sido abandonado pela polícia, com parte da droga ainda presente e os pés de maconha plantados, sem a devida custódia.
A repercussão da denúncia foi imediata, levando o governador Elmano de Freitas (PT) a visitar a fazenda em 29 de junho, acompanhado de chefes das forças de segurança. Na ocasião, o governador prometeu uma apuração rigorosa e a destruição completa da plantação, afirmando que “não vamos passar a mão na cabeça de ninguém”. A promessa, contudo, seria novamente questionada dias depois.
Exonerações e a defesa dos delegados investigados
Em meio à polêmica, os delegados da Polícia Civil do Ceará (PCCE) Vicente de Paula Rodrigues e Marcos Sandro Nazaré de Lira foram exonerados dos cargos de chefia que ocupavam. Vicente era titular da Delegacia de Acopiara, e Marcos Sandro, delegado seccional da 4ª Seccional do Interior Sul. A decisão se fundamentou na Lei nº 13.441/2004, que impede policiais civis sob processo administrativo-disciplinar de exercerem cargos comissionados ou de chefia.
A Polícia Civil esclareceu que a exoneração é um “efeito legal automático e temporário”, não uma antecipação de julgamento de mérito, e que os delegados permanecem em atividade, mas fora das funções de chefia. Contudo, a Associação dos Delegados de Polícia do Ceará (Adepol-CE), por meio de seus advogados Leandro Vasques e Seledon Dantas, criticou a instauração do processo administrativo como “precipitada e desarrazoada”, apontando a ausência de apuração preliminar e a “espetacularização” do caso como prejudiciais à imparcialidade das investigações.
A incineração e os novos questionamentos
A Polícia Civil informou em 3 de julho que a operação de destruição e incineração controlada da plantação havia sido concluída. A técnica, orientada pelo Corpo de Bombeiros, envolveu a escavação de valas, queima das plantas com gasolina e óleo diesel, e posterior recobrimento com terra para evitar a propagação do fogo. Peritos da Pefoce, Polícia Militar, Vigilância Sanitária, Ministério Público e Guarda Municipal acompanharam a ação, conforme a legislação brasileira que exige a incineração de drogas apreendidas.
No entanto, André Fernandes voltou à fazenda na noite de 2 de julho e, em nova denúncia, afirmou ter encontrado pés de maconha enterrados. O deputado acusou o governador de mentir sobre a incineração completa. Em resposta, o delegado Pedro Viana, diretor do Departamento de Polícia do Interior Sul, explicou que o material encontrado por Fernandes seriam raízes e restos de outras plantas do terreno, e não maconha. Ele destacou a extensão da área e o fato de a maconha estar verde, o que exigiu a técnica de queima em buracos controlados.
Desdobramentos políticos e legais em curso
A série de eventos levou o Partido Liberal (PL) a anunciar que acionará o Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE). O objetivo é requerer a apuração dos novos fatos, a preservação das provas, a identificação de todos os agentes públicos envolvidos e a apresentação da íntegra dos documentos oficiais da operação. O partido também avalia propor uma ação de improbidade administrativa contra o governo estadual, caso as investigações confirmem falhas deliberadas na conduta de agentes públicos.
A SSPDS já havia iniciado uma investigação sobre “falha nos procedimentos na custódia” da droga. Paralelamente, a Polícia Civil identificou o proprietário da terra, João Holanda Neto, que chegou a ser preso temporariamente e foi solto em 3 de julho. O homem que teria arrendado a área em 2025, Cristiano Rodrigues de Lima, é considerado foragido e apontado por familiares de Holanda como o verdadeiro responsável pela plantação. A complexidade do caso, com suas múltiplas camadas de investigação e repercussão, continua a demandar atenção das autoridades e da sociedade.
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