Um dos empreendimentos hoteleiros mais aguardados no litoral cearense, o projeto do Hard Rock Hotel Fortaleza, enfrenta um cenário de incertezas e reviravoltas. Com mais de cinco anos de atraso em relação à sua previsão inicial de entrega, a obra milionária acaba de sofrer um duro golpe: a perda do direito de uso da renomada marca Hard Rock, um dos principais atrativos para milhares de investidores.
A decisão judicial, obtida em maio pela Hard Rock Brazil, proíbe a incorporadora HRH Fortaleza/Residence Club de utilizar o nome que impulsionou as vendas e a expectativa em torno do luxuoso complexo. Este revés adiciona mais um capítulo a uma saga marcada por atrasos, uma enxurrada de processos de clientes insatisfeitos e investigações de órgãos de defesa do consumidor, colocando em xeque um investimento que, segundo os responsáveis, já ultrapassa os R$ 275 milhões.
A promessa de um Hard Rock no Ceará e o modelo de multipropriedade
Anunciado com grande pompa, o hotel Hard Rock Fortaleza, embora leve o nome da capital, está localizado na Praia da Lagoinha, em Paraipaba, a cerca de 100 quilômetros de Fortaleza. Ele foi apresentado em 2017 como um dos dois primeiros resorts da famosa rede norte-americana a chegar ao Brasil, após a estreia do Hard Rock Café no país em 2015.
O fundo Venture Capital Participações e Investimentos (VCI), que posteriormente se tornaria HRH, obteve o licenciamento da marca para desenvolver os hotéis no Brasil. O modelo de negócio adotado foi o de multipropriedade, onde a brasileira HRH/Residence Club ficaria responsável pela construção e venda das frações, enquanto o Hard Rock emprestaria seu prestígio para atrair clientes e, uma vez pronto, administraria o hotel. Os compradores adquiriam uma “parte” do imóvel, garantindo o direito de uso por duas semanas anuais.
A estrutura prometia um complexo grandioso à beira-mar, com 228 apartamentos, unidades “two bedroom”, casas de até 536m², além de lojas, piscinas, spa, quadras, bares, restaurantes e uma área de eventos. Com 639 unidades disponíveis, o empreendimento tinha um potencial de valor de vendas estimado em R$ 750 milhões, com um investimento inicial de R$ 170 milhões. A construção começou no final de 2017, e as vendas foram iniciadas em junho de 2018.
O poder da marca Hard Rock e a atração de investidores
O nome Hard Rock foi, sem dúvida, o grande chamariz para milhares de compradores. Documentos revelam que a incorporadora fechou mais de 18 mil contratos de venda sob o formato de fração, com valores médios de R$ 40 mil por fração. A principal vantagem, além da estada garantida no Ceará, era a possibilidade de usufruir as semanas em outros resorts da rede Hard Rock pelo mundo, ou até mesmo alugar o período para terceiros.
O bancário paulista Aníbal Rodrigues, por exemplo, adquiriu uma fração em julho de 2019, durante férias no Ceará, após ser abordado por vendedores. Ele investiu R$ 46 mil, atraído pela reputação global da marca e pela perspectiva de um investimento seguro. A previsão de entrega era dezembro de 2021. No entanto, em maio de 2025, ao pagar a última parcela, Aníbal se viu na mesma situação de milhares de outros clientes: sem o bem e buscando a Justiça para reaver seu dinheiro.
A cronologia dos atrasos e a intervenção do Decon
A previsão inicial de conclusão, dezembro de 2020, com tolerância até junho de 2021, foi sucessivamente adiada. Hoje, quase nove anos após o início das vendas, a obra segue em ritmo lento. O Programa Estadual de Defesa do Consumidor do Ceará (Decon) constatou que poucos setores estão em execução, não permitindo vislumbrar uma conclusão próxima. Em outubro de 2021, a empresa aditou o contrato, prometendo entregar o hotel até 31 de dezembro de 2022, mas novos aditivos e atrasos se seguiram em 2023, 2024 e 2025.
Diante da inércia, o Decon multou o empreendimento em R$ 12 milhões em janeiro de 2024 e abriu um novo procedimento administrativo em novembro do mesmo ano devido ao elevado número de reclamações. Vistorias do órgão revelaram que nenhuma parte do empreendimento estava pronta e que áreas mais avançadas necessitavam de reforço estrutural. Em uma das visitas, apenas 70 pessoas trabalhavam no local, incluindo o setor administrativo, número considerado insuficiente para o porte da obra.
A HRH atribui os atrasos à pandemia de Covid-19, à escassez de mão de obra e insumos, e às exigências da Hard Rock Brazil. A incorporadora alega que a marca impôs padrões internacionais e participou ativamente das definições de projetos, gestão de recursos e cronogramas, sem, contudo, compreender a realidade do mercado brasileiro. Em dezembro de 2023, os antigos proprietários da VCI venderam sua parte, e os novos donos, que assumiram em 2024 sob o nome HRH Fortaleza, afirmam que a gestão anterior subestimou dolosamente o custo total da obra, inicialmente orçada em R$ 275 milhões.
Disputas judiciais e o futuro incerto do empreendimento
A proibição de uso da marca Hard Rock, obtida judicialmente em maio de 2025, é um golpe significativo. Desde fevereiro de 2025, a incorporadora já estava impedida de vender novas unidades do projeto. Com mais de 1.100 processos relacionados ao caso somente no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), conforme levantamento do Decon de julho de 2025, o projeto se encontra em um limbo jurídico e financeiro.
Enquanto a HRH/Residence Club tenta justificar os atrasos e os desafios financeiros, muitos clientes buscam responsabilizar também a Hard Rock Brazil. Embora a Hard Rock alegue ter apenas cedido o nome e não ter envolvimento com as obras, o Decon, em maio de 2025, incluiu o grupo como parte investigada no processo administrativo em andamento. Os documentos mais recentes da empresa apontam para uma entrega em etapas, com prazos que variam de 2028 a 2034, uma perspectiva distante e incerta para quem investiu há anos.
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