O cenário da segurança pública no Brasil em 2024 apresenta um contraste marcante, com a taxa nacional de homicídios atingindo o menor patamar em 11 anos. No entanto, essa melhora não se distribui de forma homogênea pelo território. Um novo estudo, o Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revela um quadro preocupante para o Ceará, que concentra quatro das cinco cidades com os maiores índices de homicídios do país.
Os dados, que incluem uma metodologia inovadora para contabilizar os chamados “homicídios ocultos”, colocam o estado nordestino em destaque negativo, exigindo uma análise aprofundada sobre as causas e as possíveis estratégias para reverter essa tendência.
A Radiografia da Violência no Ceará
O relatório do Atlas da Violência 2026 aponta que a cidade de Maranguape, no Ceará, registrou a maior taxa de homicídios do Brasil em 2024, com impressionantes 87,2 mortes por 100 mil habitantes. A situação se estende a outras importantes cidades cearenses, que também figuram no topo do ranking nacional.
Além de Maranguape, o estado tem Maracanaú na terceira posição (74,1 homicídios por 100 mil habitantes), Itapipoca na quarta (74 por 100 mil) e Caucaia na quinta (72,9 por 100 mil). Apenas Jequié, na Bahia, com 79,4 mortes por 100 mil habitantes, quebrou a sequência cearense entre as cinco cidades mais letais do país. Maranguape, com seus 108 mil habitantes, destaca-se por ser o município com menor população entre os listados, indicando uma violência concentrada e de alto impacto proporcional.
No panorama estadual, o Ceará aparece como o quinto estado mais violento do Brasil, registrando uma taxa de 34,3 homicídios por 100 mil habitantes. Esse índice o coloca acima da média nacional e entre as 18 unidades da federação com taxas mais elevadas, atrás apenas de Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3) e Alagoas (35,9).
A Metodologia por Trás dos Números: Homicídios Ocultos
Para oferecer uma fotografia mais precisa da violência, o Atlas da Violência utiliza uma metodologia que vai além dos registros oficiais. Os pesquisadores do Ipea e do FBSP incorporam a estimativa de “homicídios ocultos”, que são mortes violentas inicialmente classificadas como de causa indeterminada no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.
Através de algoritmos de aprendizado de máquina, o estudo busca identificar quais dessas mortes podem, na realidade, ter sido homicídios não confirmados. Em Maranguape, por exemplo, o relatório aponta 39 homicídios registrados e 56 homicídios ocultos, totalizando 95 mortes estimadas. Essa abordagem é crucial para corrigir a subnotificação e revelar a verdadeira dimensão da violência no Brasil.
Com essa metodologia, o Brasil teria registrado 49.673 homicídios estimados em 2024, um número superior aos 42.590 homicídios registrados. Mesmo com a inclusão dos casos ocultos, a taxa nacional de 20,1 assassinatos por 100 mil habitantes representa o menor índice em mais de uma década, o que torna a situação do Ceará ainda mais alarmante por destoar da tendência geral.
Cenário Nacional e Desafios Regionais
Enquanto o Brasil celebra a redução geral da violência letal, o Ceará enfrenta um desafio crescente. O estado registrou um aumento de 5,2% na taxa de homicídios entre 2023 e 2024, um dos maiores crescimentos do país, ao lado do Maranhão (7,6%). Essa disparidade regional aponta para a necessidade de políticas de segurança pública mais focalizadas e adaptadas às realidades locais.
A persistência de Maranguape no topo dos rankings de violência, já tendo sido destacada no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, sugere que os problemas são estruturais e exigem intervenções contínuas e integradas. A falta de posicionamento da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) do Ceará, conforme solicitado pelo g1, levanta questões sobre as estratégias em andamento e a transparência na comunicação dos desafios.
O Impacto Social e a Urgência de Respostas
Os altos índices de homicídios em cidades como Maranguape, Maracanaú, Itapipoca e Caucaia têm um impacto profundo na vida de seus habitantes. A violência afeta a percepção de segurança, inibe o desenvolvimento econômico e social, e gera um ciclo de medo e desconfiança nas comunidades. A presença constante da polícia, como as viaturas da Polícia Militar do Ceará, é um reflexo da urgência em combater essa realidade.
É fundamental que os dados do Atlas da Violência sirvam como um catalisador para a formulação e implementação de políticas públicas eficazes, que combinem ações de repressão qualificada com investimentos em prevenção social, educação e oportunidades para a juventude. A segurança pública é um direito fundamental e um pilar para o desenvolvimento de qualquer sociedade.
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