A justiça de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, trouxe um desfecho aguardado por familiares da contadora Kaianne Bezerra Lima Chaves. Nesta quarta-feira (3), o professor de inglês Leonardo Nascimento Chaves, ex-marido da vítima e apontado como mandante do crime, foi condenado a 41 anos de prisão pelo feminicídio de Kaianne. A sentença, proferida após um julgamento que se estendeu por 26 horas, também condenou Adriano Andrade Ribeiro, executor do assassinato, a 37 anos de reclusão. A notícia da condenação foi recebida com um “sentimento de alívio” por Brenda Bezerra, irmã da contadora, marcando o fim de uma longa espera por justiça em um caso que chocou o Ceará.
O julgamento e as penas impostas pelo feminicídio
O Tribunal do Júri do Fórum Manoel Florêncio Filho, em Aquiraz, foi palco de um intenso processo que teve início na segunda-feira (1º) e se encerrou na madrugada de quarta. Leonardo Nascimento Chaves e Adriano Andrade Ribeiro foram considerados culpados por uma série de crimes, incluindo homicídio qualificado (feminicídio), furto qualificado, fraude processual e corrupção de menores, devido à participação de um adolescente no plano.
Leonardo, o mandante, recebeu a pena de 30 anos por feminicídio, 7 anos por furto qualificado, 2 anos por corrupção de menores e 2 anos de detenção por fraude processual, totalizando 41 anos em regime fechado. Além da prisão, ele foi condenado à perda do cargo público que ocupava na Secretaria Estadual de Educação e, juntamente com Adriano, deverá pagar R$ 50 mil em indenização. Adriano, o executor, foi sentenciado a 28 anos por homicídio, 5 anos por furto qualificado, 2 anos por corrupção de menores e 2 anos de detenção por fraude processual, somando 37 anos, também em regime fechado. A decisão judicial determinou o cumprimento imediato da sentença, mantendo ambos os réus presos.
A trama revelada: feminicídio por dinheiro de seguro
O crime, ocorrido em agosto de 2023 na residência do casal em Aquiraz, foi inicialmente forjado para parecer um latrocínio, um roubo seguido de morte. A investigação da Polícia Civil, no entanto, desvendou uma trama macabra: Leonardo Nascimento Chaves teria planejado o assassinato da esposa, Kaianne Bezerra Lima Chaves, de 35 anos, com o objetivo de receber um seguro de vida no valor de cerca de R$ 60 mil.
As provas coletadas pela polícia foram cruciais para a reviravolta no caso. Imagens de câmeras de segurança registraram Leonardo se encontrando com os executores em um shopping pouco antes do crime, desmentindo a versão de um assalto aleatório. Segundo a investigação, o próprio Leonardo teria instruído os criminosos a agredi-lo para reforçar a farsa. Os exames periciais confirmaram que Kaianne foi morta por asfixia. A participação do marido foi posteriormente admitida pelos outros envolvidos, que detalharam como ele orientou o roubo de alianças, indicou o objeto para matar a esposa e até ajudou a retirar televisores e outros itens da casa para simular o assalto.
A busca por justiça e a repercussão social
Para a família de Kaianne, a condenação representa um passo fundamental na busca por justiça. Brenda Bezerra, a irmã da vítima, expressou o sentimento de alívio e a descrença diante da longa espera, mas ressaltou que “valeu a pena”. O Ministério Público, representado pelos promotores Luís Bezerra e Adrielly Nascimento, destacou a solidez das provas apresentadas – filmagens, extração de dados de celulares, depoimentos e perícias – que refutaram a versão dos acusados.
A promotora Adrielly Nascimento enfatizou a mensagem clara enviada pelo julgamento: “A sociedade cearense, o Conselho de Sentença aqui de Aquiraz, não tolera, não tolerará nenhum tipo de crime contra mulher. E aquele que o cometer, seja ordenando, seja executando, crimes de feminicídio, será devidamente responsabilizado”. Essa declaração ressalta a importância da condenação como um marco no combate ao feminicídio e à violência de gênero, reforçando que tais crimes não ficarão impunes. Para entender mais sobre a legislação e o impacto do feminicídio, você pode consultar informações no site do Ministério Público Federal.
Os desdobramentos e a defesa
Apesar da condenação, as defesas dos réus já anunciaram que recorrerão da decisão. Pedro Brasil, advogado de Leonardo Nascimento, afirmou que a defesa lutou com as provas disponíveis e recorrerá diante do veredito. Já Jessica Rodrigues, advogada de Adriano Ribeiro, mencionou a intenção de produzir uma nova prova técnica para ser apresentada em apelação no Tribunal de Justiça e em uma Revisão Criminal.
Além de Leonardo e Adriano, um terceiro homem, Philipe Azevedo de Araújo, chegou a ser denunciado, mas foi impronunciado pela Justiça por falta de indícios. Um adolescente de 15 anos que participou da ação criminosa cumpriu medida socioeducativa de internação máxima de três anos. O caso de Kaianne Bezerra Lima Chaves expõe a complexidade e a crueldade dos crimes motivados por interesses financeiros, especialmente quando a vítima é uma mulher, e reforça a necessidade de vigilância e combate contínuo ao feminicídio.
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