Dez anos após o terror, a sargento da Polícia Militar Michelly Mariano revisitou o local que quase foi seu fim, na estrada de acesso ao distrito de Juatama, em Quixadá, no Sertão Central do Ceará. Em 30 de julho de 2015, uma emboscada brutal resultou na morte de três policiais militares e a deixou refém, marcando sua vida e a história da segurança pública na região. A experiência, embora traumática, transformou-a, como ela mesma afirma: “O lugar que poderia ter sido a minha morte me transformou na mulher corajosa que eu sou hoje”.
A memória daquele dia permanece vívida para a sargento. Equipes da Polícia Militar se deslocavam para atender a uma ocorrência quando se depararam com uma quadrilha de cerca de oito a dez criminosos, fortemente armados com fuzis. O grupo tinha como alvo um carro-forte, e o encontro inesperado desencadeou um confronto sangrento. Os bandidos abriram fogo impiedosamente contra as viaturas policiais, transformando a estrada em um cenário de guerra.
O Ataque Brutal em Quixadá
A violência do ataque foi imediata e avassaladora. “Tinha uma média de oito a dez bandidos armados de fuzil e eles metralharam as duas viaturas que estavam aqui”, recordou Michelly. A chuva de balas ceifou a vida de três policiais militares no local. Um quarto agente foi baleado na perna, mas conseguiu sobreviver aos ferimentos. A sargento Michelly, que estava na segunda viatura, presenciou a cena de horror logo após os primeiros disparos, um momento que descreve como “cena de terror”.
A situação se agravou quando os criminosos, em sua fuga, tomaram uma das viaturas da PM e levaram Michelly e outro policial como reféns. A sargento foi jogada na carroceria do veículo, enquanto os assaltantes escapavam em alta velocidade. “Aqui os bandidos colocaram um fuzil no meu rosto. Um deles a todo momento dizia que eu ia morrer”, relatou, revivendo o pavor daquele instante. A incerteza da vida e a imagem de seu filho, que na época tinha apenas um ano, preenchiam seus pensamentos.
Refém e a Luta Pela Sobrevivência
A fuga dos criminosos foi marcada por mais atos de violência e desespero. Para dificultar a perseguição policial, os bandidos atravessaram um caminhão na rodovia. Antes de abandonarem a viatura com os reféns, eles descarregaram dezenas de disparos contra o veículo. “Eles metralharam cerca de mais de 30 disparos de fuzil dentro da viatura. Eu fiquei encolhida, esperando saber como era a sensação de levar um tiro de fuzil”, contou Michelly, descrevendo a angústia de cada segundo.
Após a saraivada de tiros, a sargento e seu colega conseguiram escapar milagrosamente. Correram para uma área de mata às margens da estrada, buscando refúgio e tentando processar o que acabavam de viver. “Eu entrei bem para dentro da mata e fiquei sem acreditar que tinha sobrevivido a essa ocorrência”, disse ela, evidenciando o choque e a incredulidade diante da própria resiliência. Os dois policiais mortos no local foram confirmados, enquanto o terceiro, socorrido ao Hospital Municipal de Quixadá, não resistiu aos ferimentos.
Repercussão e o Desfecho Judicial
O ataque em Quixadá chocou o Ceará e o país, expondo a brutalidade do crime organizado e os riscos diários enfrentados pelas forças de segurança. A busca por justiça para os policiais mortos e feridos foi longa e complexa. Em fevereiro deste ano, quase uma década após o ocorrido, o júri popular absolveu dois acusados de envolvimento no tiroteio, após eles terem permanecido oito anos presos. Esse desfecho judicial reacende o debate sobre a eficácia do sistema de justiça em casos de alta complexidade e a necessidade de respostas claras para a sociedade e as famílias das vítimas.
A história da sargento Michelly Mariano é um testemunho da coragem e da resiliência dos profissionais de segurança pública. Sua capacidade de revisitar o trauma e transformá-lo em força inspira e alerta para a realidade da violência. O episódio de 2015 em Quixadá permanece como um marco doloroso, mas também como um lembrete constante da luta diária contra o crime e da importância de valorizar aqueles que dedicam suas vidas à proteção da população.
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