A sabedoria popular, frequentemente passada de geração em geração, muitas vezes guarda conhecimentos que a ciência busca validar. No Ceará, uma dessas crenças – a de que o consumo de cuscuz por mães lactantes pode aumentar a produção de leite materno – foi objeto de um estudo científico aprofundado. Realizada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em Sobral, a pesquisa investigou a associação entre a ingestão do alimento e o ganho de peso dos bebês, oferecendo uma perspectiva valiosa sobre a nutrição materno-infantil.
Os resultados do estudo, divulgados em fevereiro no renomado Journal of Tropical Pediatrics, da Oxford University Press, apontaram uma correlação significativa: mães que consumiram cuscuz durante a amamentação tiveram bebês com um ganho de peso 37% maior. Embora os pesquisadores levantem a hipótese de que esse efeito esteja mais ligado ao aumento do aporte calórico materno do que a uma propriedade específica do cuscuz, a descoberta ressalta o potencial de alimentos acessíveis e culturalmente arraigados como estratégias de apoio à amamentação.
A ciência por trás do saber popular
A pesquisa, desenvolvida pela enfermeira Dyanna Linhares em seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família da UFC Campus Sobral, em colaboração com pesquisadores da Faculdade de Medicina da UFC e da Fundação Oswaldo Cruz, partiu da observação de relatos comuns na prática clínica. O professor Plácido Arcanjo, orientador do estudo, destacou que a inquietação em medir o impacto do cuscuz no aumento de peso dos bebês nasceu dessa sabedoria tradicional.
Para garantir a precisão dos resultados, Dyanna Linhares percorreu casas em regiões distantes de Sobral, como os distritos de Jordão e Patos, levando a mesma balança para pesar os bebês. O estudo clínico randomizado envolveu 30 mulheres, com idades entre 18 e 40 anos, vinculadas aos Centros de Saúde da Família (CSF) e em período de amamentação exclusiva. Os bebês eram a termo, saudáveis e tinham entre 1 e 4 meses de vida, sem dificuldades na amamentação ou condições de saúde que pudessem interferir no processo. Crianças com outras fontes de nutrição, alergia ao milho ou condições congênitas que afetassem o crescimento foram excluídas.
Metodologia e resultados do estudo
As participantes foram divididas em dois grupos de 15 integrantes e acompanhadas por 40 dias. No primeiro grupo, as mães consumiram 70 gramas de cuscuz diariamente por 20 dias, seguidos por 20 dias sem o alimento. O segundo grupo iniciou o estudo sem cuscuz por 20 dias, passando a ingeri-lo nos 20 dias seguintes. Para assegurar a ingestão correta, os pesquisadores doaram cuscuzeiras e porções diárias individualizadas de cuscuz.
Os bebês de ambos os grupos foram pesados no dia 1, no dia 20 e no dia 40. A comparação dos dados revelou que, nos períodos em que as mães consumiram cuscuz, as crianças apresentaram um ganho de peso de aproximadamente 33 gramas por dia, totalizando cerca de 1.011 gramas por mês. Em contraste, os bebês cujas mães não ingeriram cuscuz ganharam cerca de 24 gramas por dia, ou 738 gramas por mês.
Além do ganho de peso, o estudo também registrou relatos das mães: 60% afirmaram um aumento acentuado na produção de leite durante o consumo do suplemento, e 30% notaram um aumento moderado. A hipótese central dos pesquisadores é que a porção de cuscuz, que fornece cerca de 50% da demanda extra de energia para lactantes, contribui para o equilíbrio energético materno, impactando indiretamente o ganho de peso do bebê.
Limitações e o futuro da pesquisa
É importante ressaltar que o estudo possui algumas limitações. A amostra de mulheres foi pequena, o período de acompanhamento, curto, e não houve medição direta da produção de leite materno, utilizando o ganho de peso dos bebês como um resultado indireto. Além disso, a dieta total das participantes não foi completamente monitorada, e pode haver um viés nos resultados relatados pelas mães.
Contudo, a pesquisa se destaca por ter sido realizada em um contexto real de atenção primária à saúde, focando em uma estratégia com um alimento acessível e presente na rotina das mães atendidas. Os pesquisadores sugerem que estudos futuros utilizem amostras maiores, maior tempo de acompanhamento e biomarcadores diretos para esclarecer os mecanismos que ligam a ingestão de amido aos resultados da amamentação.
Cuscuz: um aliado acessível e cultural na saúde da família
O cuscuz, reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco, é um alimento popular e versátil, especialmente no Nordeste brasileiro. Preparado com farinha de milho, água e sal, e frequentemente combinado com queijo ou ovo, seu custo acessível – um pacote de farinha de milho pode custar cerca de R$ 2 – o torna uma opção viável para famílias de baixa renda.
A enfermeira Dyanna Linhares enfatiza que essa orientação pode ser incorporada pelas equipes da Estratégia Saúde da Família na rede pública, valorizando os alimentos regionais e reforçando a importância da alimentação adequada durante a amamentação. “É um alimento que já estava na rotina de muitas dessas mulheres. E esse reforço na amamentação é um conhecimento passado de geração para geração”, afirmou Linhares ao g1. A pesquisa, ao aliar o conhecimento empírico ao científico, valida práticas populares e oferece um caminho seguro para orientar a população sobre a nutrição materno-infantil.
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