Cemitério São João Batista em Fortaleza: tours revelam história e lendas sobrenaturais
Foto: Fabiane de Paula/SVM
Cemitério São João Batista em Fortaleza: tours revelam história e lendas sobrenaturais

O Cemitério São João Batista, o mais antigo de Fortaleza ainda em funcionamento, transcende sua função tradicional para se consolidar como um vibrante museu a céu aberto. Localizado no coração da capital cearense, o espaço de 160 anos de atividade atrai visitantes interessados em desvendar não apenas a história de personalidades que nomeiam ruas e bairros, mas também crimes e relatos sobrenaturais que permeiam suas antigas alamedas.

Diversos grupos e projetos têm transformado a necrópole em um palco para o necroturismo, uma prática que ganha força em grandes cidades como São Paulo, Buenos Aires e Paris. Com abordagens que variam da história e filosofia a lendas urbanas e investigações paranormais, essas iniciativas convidam o público a uma reflexão profunda sobre cultura, diversidade e as dinâmicas sociais da cidade, em passeios diurnos e noturnos.

O São João Batista: um museu a céu aberto na capital cearense

Inaugurado em 1866, o cemitério São João Batista é um verdadeiro repositório da memória cearense. Seus nove hectares abrigam os restos mortais de figuras ilustres como Desembargador Moreira, Raul Barbosa, Senador Pompeu, Antônio Sales e Rodolfo Teófilo, cujos nomes ecoam na geografia urbana de Fortaleza e do Ceará. A riqueza arquitetônica de seus túmulos, mausoléus e jazigos, muitos datados do século XIX e início do XX, é um testemunho da importância social e econômica dos sepultados.

O historiador e filósofo Thiago Roque, do projeto Fortaleza Necrópole, explica que a imponência das construções tumulares refletia o status em vida. “Há relatos de que algumas famílias deixavam em seus testamentos para que fosse investida toda a sua fortuna nos seus túmulos”, detalha. Essa divisão social se manifesta também na própria estrutura do cemitério: o primeiro plano, na entrada, reservado às famílias mais ricas e tradicionais, enquanto as camadas sociais menos abastadas e os não-católicos eram sepultados em áreas mais afastadas.

A localização original do cemitério, fora do perímetro urbano da Fortaleza do século XIX, também revela aspectos históricos. As políticas de higienização da época ditavam que os “odores dos mortos” não contaminassem a cidade, uma crença que influenciou a escolha do local e a direção dos ventos que ainda hoje correm pela necrópole.

Mergulho na história: projetos que desvendam o passado

Entre os projetos que promovem essa imersão histórica está o Fortaleza Necrópole, liderado por Thiago Roque e pelo historiador Sandoval Matoso. Desde 2024, eles conduzem aulas que abordam a história e a filosofia, oferecendo turmas diurnas e, a partir de outubro de 2025, também aulas noturnas com a participação de atores que representam personagens históricos.

Os visitantes são guiados por túmulos que contam histórias fascinantes. Um exemplo é o de Caio Prado, político que morreu prematuramente aos 35 anos de febre amarela. Seu túmulo, adornado com pedras importadas do Egito e uma coluna cortada, simboliza a vida interrompida. Ao lado, jaz Tomás Pompeu, o Senador Pompeu, jornalista, professor e sacerdote, cuja sepultura ostenta a assinatura do ceramista responsável pela arte tumular.

O cemitério também guarda os restos mortais de vários barões cearenses, como o Barão de Aratanha, sepultado em um grande mausoléu da família Albano, próximo à capela – uma posição de prestígio que simbolizava a proximidade com o divino. O Barão de Studart, Guilherme Chambly Studart, médico e historiador, é outro nome de destaque, sendo o único barão cearense com título concedido diretamente pela Igreja.

Entre o real e o místico: lendas e curiosidades

Além da história factual, o Cemitério São João Batista é um celeiro de lendas e mistérios. O tour Mistérios de Fortaleza, conduzido por Kris Oliveira, do canal Conhecendo o Sobrenatural, e Renan Silva, estudante de história do canal La Tumba – Túmulos dos Famosos, explora esses aspectos desde 2025, atraindo grupos de cerca de 70 pessoas.

Renan Silva, apaixonado pelo cemitério, dedica-se a catalogar os sepultados, descobrindo histórias de pessoas comuns e relembrando crimes que comoveram a cidade. Ele ressalta a beleza da arte tumular, que se perde nos modernos “cemitérios parques”. Kris, por sua vez, compartilha relatos sobrenaturais e investigações paranormais, transformando as visitas em uma troca de informações com o público, que muitas vezes contribui com suas próprias histórias.

Entre os túmulos que despertam curiosidade está o de Ana Triste, esposa de Tristão Gonçalves, que assumiu o sobrenome após a morte do marido. Ana é vista como uma das mulheres esquecidas na história do Ceará, tendo se engajado nas articulações políticas da Confederação do Equador. Outro ponto de grande significado é o Ossuário Ao Cristão Desconhecido, um monumento dedicado a milhares de pessoas marginalizadas, sem identificação ou sepultamento de prestígio, incluindo retirantes das secas e vítimas de doenças infecciosas.

Reflexões sobre sociedade e memória

Os grupos que promovem as visitas ao cemitério São João Batista compartilham o desejo de valorizar a diversidade de histórias ali presentes, ressaltando o contraste entre as tradições e as culturas marginalizadas. A necrópole, com suas ruas e planos, oferece evidências de conflitos sociais e fatos marcantes para a história do Ceará, convidando a uma reflexão sobre a forma como a sociedade lida com a morte e a memória.

Atualmente, os projetos enfrentam algumas restrições para agendar novas excursões devido ao período de obras estruturais no cemitério. No entanto, os novos agendamentos são divulgados nas redes sociais de cada iniciativa, garantindo que o público continue a ter acesso a essa experiência única de aprendizado e descoberta.

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