mês. Ele e a família chegaram a passar fome, durante o período pandêmico. ✅ Cliq
Reprodução G1
mês. Ele e a família chegaram a passar fome, durante o período pandêmico. ✅ Cliq

Um caso chocante de trabalho análogo à escravidão veio à tona em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, Ceará, com o resgate de um caseiro e sua família. O trabalhador, que vivia em condições precárias há cerca 18 anos, revelou à Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) que, no mês anterior à operação de resgate, havia recebido a ínfima quantia de R$ 160 pelos seus serviços.

A situação de vulnerabilidade extrema foi constatada no final de junho, quando equipes da AFT e do Ministério Público do Trabalho (MPT) intervieram na chácara onde a família residia. Além do salário irrisório, as vítimas enfrentavam “insegurança alimentar extrema”, tendo como única opção de alimento um macarrão instantâneo no momento da fiscalização.

A Promessa Que Virou Cativeiro

A jornada do caseiro na propriedade rural começou em 2008, quando ele deixou sua cidade de origem atraído por uma proposta de emprego que parecia promissora. A oferta incluía a formalização do vínculo empregatício com carteira assinada, pagamento de salário mínimo mensal, fornecimento de cesta básica e melhores condições de vida para sua família. Para aceitar, ele chegou a vender a residência onde morava.

No entanto, as promessas nunca foram cumpridas. O vínculo empregatício jamais foi formalizado, e a remuneração, quando paga, ocorria de forma irregular e em valores progressivamente menores. O trabalhador relatou que o salário foi “minguando” ao longo dos anos, chegando a R$ 30 ou R$ 40 mensais durante o pico da pandemia de COVID-19, período em que ele e sua família chegaram a passar fome.

A dependência da ajuda de terceiros para se alimentar e comprar itens básicos, como gás de cozinha, tornou-se uma constante. Vizinhos e outros familiares eram a única rede de apoio para a subsistência da família, uma versão corroborada por testemunhas ouvidas durante a operação.

Condições Desumanas e Isolamento

As condições de moradia e trabalho na chácara eram igualmente degradantes. A família residia em um imóvel com problemas estruturais persistentes, incluindo infiltrações e deterioração de diversas partes da construção. Os próprios moradores tentavam realizar reparos improvisados para mitigar os riscos da falta de manutenção.

Ao chegar à propriedade, o imóvel não possuía mobiliário básico, contando apenas com um pequeno refrigerador. A família precisou recorrer a doações e materiais descartados para equipar minimamente a casa. Além disso, o caseiro era o único responsável por toda a manutenção da propriedade, realizando tarefas como limpeza de áreas externas, poda de árvores, corte de grama, irrigação, adubação de plantas, limpeza de piscina e operação de equipamentos.

Essas atividades eram desempenhadas sem o treinamento adequado e sem o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs), expondo o trabalhador a riscos. O isolamento social também era uma realidade imposta: o caseiro raramente conseguia visitar sua família de origem, e pessoas que tentavam visitá-lo eram proibidas ou desencorajadas. Ele também não podia se ausentar da propriedade sem autorização, precisando sempre deixar alguém responsável pelo local.

O Resgate e a Disputa pelos Direitos

Diante das evidências, o empregador, cuja identidade não foi revelada, alegou que pagava regularmente o salário do caseiro, mas não apresentou comprovantes à AFT e ao MPT. A Auditoria-Fiscal do Trabalho, considerando a ausência de documentos formais, adotou 2008 como o marco inicial da relação de emprego para apuração dos créditos trabalhistas, previdenciários e fundiários.

No entanto, em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público do Trabalho, o empregador reconheceu o vínculo empregatício apenas no período de julho de 2020 a junho de 2026, comprometendo-se ao pagamento de R$ 50 mil, divididos em duas parcelas. Essa quantia está bem abaixo da estimativa da AFT, que calculou os créditos devidos em aproximadamente R$ 180 mil, considerando férias não usufruídas, 13º salários, horas extras e outras parcelas ao longo dos 18 anos.

O TAC ressalta que a indenização paga não representa quitação plena e não impede que o trabalhador ajuíze ações futuras para cobrar outros valores devidos, especialmente para o reconhecimento do período integral de trabalho. Esta cláusula abre caminho para uma possível discussão judicial que busque a reparação completa dos direitos do caseiro.

Um Problema Recorrente no Ceará

Este resgate em Aquiraz não é um caso isolado. A operação ocorreu um dia antes de outra ação que encontrou uma doméstica em Eusébio, município vizinho, que passou 55 anos sem receber salário. Ambos os casos evidenciam a persistência do trabalho análogo à escravidão no Ceará e a importância da atuação dos órgãos de fiscalização e justiça para combater essa grave violação dos direitos humanos.

A luta contra a exploração de trabalhadores é contínua, e os resgates servem como um lembrete da necessidade de vigilância e denúncia. A Auditoria-Fiscal do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho seguem atuando para garantir que a dignidade humana e os direitos trabalhistas sejam respeitados em todo o país. Para mais informações sobre o combate ao trabalho escravo no Brasil, você pode consultar o site do Ministério Público do Trabalho.

O News BV continua acompanhando de perto os desdobramentos deste e de outros casos que impactam a sociedade. Mantenha-se informado com nossa cobertura aprofundada e contextualizada sobre os temas mais relevantes do Brasil e do mundo, garantindo que você tenha acesso a informações de qualidade e credibilidade.

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