A cidade de Fortaleza, no Ceará, foi palco de uma operação policial que culminou na prisão do pastor evangélico Alan Pereira Vicente, de 38 anos. Ele é suspeito de cometer uma série de abusos sexuais contra mulheres e até menores de idade que frequentavam a igreja que liderava. A prisão, efetuada na última quinta-feira (7), revelou um padrão de manipulação e exploração da fé, onde o líder religioso utilizava falsas promessas de cura para submeter suas vítimas.
A gravidade das acusações se intensificou com relatos detalhados de como Alan Pereira Vicente ludibriava as fiéis. Em um dos casos mais chocantes, o pastor teria afirmado a uma estudante de 27 anos que havia “identificado” um tumor em seu útero, alegando a necessidade de um “procedimento espiritual” para removê-lo. Essa justificativa macabra era o pretexto para os atos de violência, que se estendiam para além dos muros da igreja, culminando em estupros e um rastro de intimidação. A Justiça Estadual manteve a prisão do suspeito após audiência de custódia na sexta-feira (8), enquanto as investigações prosseguem para desvendar a extensão total dos crimes.
A teia de manipulação: falsas curas e vulnerabilidade das vítimas
O modus operandi de Alan Pereira Vicente se baseava na exploração da vulnerabilidade e da fé de suas vítimas. A uma estudante universitária, ele não apenas inventou a existência de um tumor uterino, mas também aterrorizou a jovem com a história de que uma pessoa havia morrido por não realizar o “procedimento” a tempo. O medo, somado à confiança depositada no líder religioso, levou a estudante a aceitar encontros privados em uma sala da igreja. Nesses encontros, o pastor exigia que a vítima retirasse as roupas íntimas, realizando toques íntimos sob o pretexto de remover o suposto tumor.
A estudante relatou à TV Verdes Mares a angústia e a confusão que sentiu: “Ele falou que eu tinha câncer, fez orações por mim. Foi depois do estupro que eu entendi que tudo era abuso. Ele mandava eu tirar o vestido, tirar a parte de baixo e me deitar na mesa dele. Ele colocava um pano no meu rosto e mandava eu abrir as pernas e relaxar porque ele ia tirar o câncer dentro de mim.” Este depoimento chocante ilustra a profundidade da manipulação psicológica empregada pelo pastor, que se valia da crença em milagres para justificar seus atos criminosos.
Violência e coação: o desvio de fé para o crime
Os abusos sexuais não se limitavam aos rituais de “cura”. Em outra ocasião, a mesma estudante foi abordada pelo pastor no Centro de Fortaleza, onde ele trabalhava como segurança. Alan Pereira ofereceu uma carona de moto, alegando preocupação com a segurança da fiel. No entanto, desviou o caminho e a levou para um motel. Apesar da recusa explícita da jovem, ela foi violentada e, posteriormente, pressionada a manter silêncio, com o pastor pedindo que ela orasse e o perdoasse.
Outra vítima, uma dona de casa de 20 anos, também foi alvo das falsas curas. Após se queixar de uma inflamação pós-parto, o pastor a contatou insistentemente, afirmando a necessidade de ir à sua casa para “resolver coisas espirituais”. Lá, ele alegou que a mulher possuía “bolas de carne” e “pregos e agulhas” em seu corpo. Para justificar a introdução de suas mãos no corpo da vítima, Alan Pereira citou o versículo 18 do capítulo 16 do livro de Marcos, que fala sobre a imposição de mãos para a cura dos enfermos. Diante da relutância da jovem, ele a ameaçou com a possibilidade de desenvolver câncer e morrer caso não cedesse. A mulher descreveu a violência, que incluiu a introdução de seu punho e dedos, lubrificados com azeite, em seu corpo, sob o pretexto de retirar os objetos imaginários. Esses encontros se repetiram por três dias, até a vítima se recusar a continuar e, posteriormente, deixar de frequentar a igreja.
O rastro de intimidação: ameaças e difamação contra denunciantes
Após os abusos, o comportamento do pastor Alan Pereira Vicente se voltava para a intimidação e a descredibilização das vítimas. A estudante que o denunciou em março deste ano, levando à sua expulsão da igreja em abril, relatou que o pastor passou a difamá-la perante outros fiéis. Essa tática de inversão da culpa era uma constante, com o suspeito registrando boletins de ocorrência contra as denunciantes, alegando calúnia, em uma tentativa de silenciá-las e minar suas acusações.
As ameaças iam além da difamação. Um áudio obtido pela TV Verdes Mares revelou o pastor ameaçando o companheiro de uma das vítimas, que o procurou após tomar conhecimento dos abusos. No áudio, Alan Pereira profere maldições e, de forma ainda mais grave, menciona a possibilidade de acionar o “Comando Vermelho” contra o homem. “Eu te amaldiçoo. Que a mão de Deus pese sobre a tua vida e sobre a tua casa. Que Deus faça perder tua língua e quebrar teus dentes. Que a espada de Deus esteja sobre tua vida. Eu espero nunca mais te ver, macho, se um dia eu te ver […]. Tu tem sorte, macho, de eu não mandar os meninos do CV aí te dá uma pisa”, diz a gravação, expondo a periculosidade e a rede de intimidação que o pastor tentava construir.
Investigação em curso e o impacto na comunidade religiosa
A prisão de Alan Pereira Vicente foi resultado do cumprimento de um mandado de prisão preventiva, efetuado em sua residência enquanto ele se preparava para ir à igreja. Ele foi encaminhado à Delegacia de Capturas e permanece à disposição da Justiça. A Polícia Civil do Ceará informou que as investigações continuam ativas, buscando não apenas consolidar as provas contra o pastor, mas também averiguar a possível coação das vítimas por outros membros da igreja, o que indicaria uma rede de apoio ou silenciamento.
Fontes ligadas à TV Verdes Mares apontam que o número de vítimas pode ser maior, com pelo menos três mulheres adultas e dois menores de idade tendo sido alvo dos crimes sexuais, embora apenas duas tenham formalizado denúncia à polícia até o momento. Um terceiro relato, de um frentista de 22 anos e ex-companheiro de uma das vítimas, trouxe à tona comportamentos inadequados do pastor desde o passado, incluindo questionamentos íntimos sobre sua virgindade quando o frentista tinha apenas 12 anos. Mesmo após ser expulso da igreja onde atuava no bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza, Alan Pereira teria assumido a liderança de outro ministério religioso, levantando questões sobre a fiscalização e a proteção de fiéis em ambientes de culto. Este caso ressalta a importância de denunciar abusos e a necessidade de as instituições religiosas implementarem mecanismos robustos de proteção e acolhimento às vítimas. Para denúncias de violência sexual, procure o Disque 100.
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