Há 92 anos, em 20 de julho de 1934, o Brasil perdia uma de suas figuras mais emblemáticas e veneradas: Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. Conhecido carinhosamente como Padim, o sacerdote, que faleceu aos 90 anos, deixou um legado de fé, política e devoção que reverbera até hoje, especialmente em Juazeiro do Norte, no Ceará. Sua morte, envolta em particularidades e uma comoção popular sem precedentes, marcou o início de uma peregrinação contínua que transforma a cidade em um dos maiores centros de romaria do país.
Os últimos dias do Padim foram de reclusão e fragilidade, mas sua influência permaneceu inabalável. Acompanhe os detalhes marcantes de sua despedida, as curiosidades de seu velório e o impacto duradouro de sua vida e obra.
Os últimos dias de reclusão e a saúde debilitada
Em meados de 1934, a saúde de Padre Cícero já estava bastante comprometida. Cego de um olho e com a visão do outro severamente limitada, mesmo após uma cirurgia de catarata que exigiu um empréstimo considerável, o Padim vivia recolhido no casarão da Rua São José, no centro de Juazeiro do Norte. A casa, com suas oito janelas na fachada, era seu refúgio e, ao mesmo tempo, seu último púlpito, onde costumava conversar com os devotos da janela favorita, já que estava impedido de celebrar missas.
Nesse período de fragilidade, o sacerdote era assistido por um círculo íntimo que incluía médicos, as beatas que moravam com ele – como Joana Tertulina de Jesus, a Beata Mocinha – e afilhados dedicados, como as professoras Generosa Alencar e Amália Xavier. Suas observações e relatos se tornaram fontes valiosas para biógrafos, enriquecendo a narrativa sobre o sofrimento do Padre Cícero com diversas doenças e suas últimas palavras.
A causa da morte e o mistério do “intestino”
A causa oficial da morte de Padre Cícero, conforme documentos antigos elaborados pela Igreja Católica, é descrita de forma sucinta: “faleceu de intestino”. Essa informação, embora concisa, aponta para problemas digestivos como o principal motivo de seu falecimento, detalhe corroborado por diversas biografias do sacerdote. O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, em seu livro “Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros”, oferece uma explicação mais aprofundada.
Segundo Mello, após a malsucedida cirurgia de catarata, a saúde do Padre Cícero deteriorou-se rapidamente. Um “desfalecimento orgânico irreversível” teve início na função digestiva, culminando em uma obstrução intestinal completa nos últimos dias de sua vida. Essa condição grave levou ao seu falecimento, encerrando uma trajetória de quase um século dedicada à fé e ao povo do sertão.
As últimas palavras e a vigília em Juazeiro
A madrugada de 20 de julho de 1934 foi marcada por uma intensa vigília no casarão da Rua São José. Com a medicina da época sem mais alternativas, a morte do Padim era iminente. Dentro e fora da residência, centenas de pessoas se reuniam, rosários em mãos, em um coro de orações que ecoava pela cidade. Deitado em seu leito, Padre Cícero balbuciou suas últimas palavras, que foram cuidadosamente registradas por biógrafos como Lira Neto em “Padre Cícero: poder, fé e guerra no Sertão”.
As frases “No Céu, eu rogarei a Deus por todos vocês…” foram ouvidas pelos presentes na casa, um testamento de sua dedicação e intercessão. Já as palavras “meu pai, meu pai, meu pai…” teriam sido escutadas apenas por sua afilhada Amália Xavier de Oliveira, que se adiantou e aproximou o ouvido da boca do sacerdote. Esses momentos finais, carregados de emoção e espiritualidade, selaram a memória de um homem que dedicou sua vida ao serviço divino e ao seu povo.
O velório grandioso e as curiosidades fúnebres
O velório de Padre Cícero foi um evento de proporções épicas, que durou cerca de 30 horas e reuniu uma multidão estimada em 60 mil pessoas. O cortejo fúnebre, que acompanhou o corpo até o sepultamento, demonstrou a imensa popularidade e o profundo carinho que o povo nutria pelo Padim. Contudo, o velório também foi marcado por algumas curiosidades que se tornaram parte da lenda do sacerdote.
Dois caixões para o Padim
Uma das histórias mais intrigantes é a necessidade de dois caixões para o corpo do Padre Cícero. O historiador Roberto Júnior, criador do perfil Cariri das Antigas, explica que, na época, as urnas funerárias não eram produzidas em escala industrial, sendo feitas sob medida para cada falecido. Devido à causa da morte, o corpo do Padre Cícero passou por um processo de degradação mais acelerado, resultando em inchaço. A primeira urna, que já estava com seus limites extrapolados, precisou ser substituída por uma segunda, confeccionada às pressas para acomodar o corpo.
A “ressurreição” e a comoção popular
Durante o velório, um incidente gerou grande comoção e um grito de “O Padim Ciço ressuscitou!” entre os fiéis. O farmacêutico José Geraldo da Cruz, que mais tarde se tornaria prefeito de Juazeiro do Norte, organizou a exibição do caixão em um dos janelões do casarão da Rua São José para que a multidão na rua pudesse ver o corpo. No manuseio, o braço direito do Padim se moveu e caiu, causando a ilusão de um movimento de vida. Esse momento, embora prontamente explicado, ilustra a intensidade da fé e da esperança que os devotos depositavam em Padre Cícero.
Legado e os santuários da fé em Juazeiro do Norte
Após seu sepultamento no altar da Capela do Socorro, ao lado do cemitério mais antigo de Juazeiro do Norte, o Dia de Finados se transformou em uma das maiores romarias do Brasil, atraindo milhões de fiéis anualmente. A cidade se consolidou como um centro de peregrinação, onde os católicos visitam o túmulo do Padre Cícero e tocam objetos na lápide, buscando bênçãos e milagres. A devoção ao Padim é tamanha que a Igreja Católica já o considera oficialmente um Servo de Deus, com o processo de beatificação em análise no Vaticano, um passo crucial para sua eventual canonização.
Além do túmulo, Juazeiro do Norte abriga diversos espaços dedicados à memória do santo popular, que servem como pontos de visitação e preservação de sua história:
- Casarão da Rua São José: A antiga residência do Padre Cícero, hoje um museu, guarda objetos pessoais e presentes de romeiros. Era de uma de suas janelas que o Padim, impedido de celebrar missas, conversava com os devotos, usando o vocativo “amiguinho” e exigindo silêncio devido à sua voz baixa.
- Memorial Padre Cícero: Fundado em 1988 e reinaugurado recentemente, o memorial no bairro do Socorro abriga um acervo diversificado, incluindo a biblioteca particular do Padre Cícero, com livros sobre literatura, línguas estrangeiras, catecismos, música e até medicina. Cartas de romeiros de 1910 e 1911 revelam pedidos de conselhos e remédios ao padre.
- Casarão do Horto: Localizado no ponto mais alto da cidade, era o refúgio do Padim. Transformado em museu, exibe esculturas em tamanho real do Padre Cícero e tem suas paredes revestidas por ex-votos, como fotografias e vestidos de noiva, testemunhos das graças atribuídas à sua intercessão.
A vida e a morte de Padre Cícero continuam a inspirar e a mover milhões de pessoas, reafirmando seu papel central na cultura e na religiosidade brasileira. Para saber mais sobre figuras históricas e eventos que moldaram o Brasil, continue acompanhando as análises e reportagens aprofundadas do News BV, seu portal de informação relevante e contextualizada. Acesse aqui para aprofundar seus conhecimentos.