A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Eleitoral (MPE) deflagraram uma operação que resultou na prisão e posterior soltura de Carlos Daniel Silva Queiroz, filho do ex-prefeito de Choró, Bebeto Queiroz, conhecido como Bebeto do Choró. Daniel, que foi detido sob suspeita de lavagem de dinheiro, recebeu liberdade provisória com o uso de tornozeleira eletrônica, em um desdobramento de uma investigação criminal conjunta que mira seu pai, foragido desde dezembro de 2024.
A prisão de Carlos Daniel ocorreu na última quarta-feira (24), durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão. Após audiência de custódia realizada na quinta-feira (25), a Justiça determinou sua liberação, impondo uma série de medidas cautelares. O caso lança luz sobre a complexa rede de acusações que envolve o ex-gestor municipal e seus familiares, em um cenário de fraudes e desvios de recursos públicos no interior do Ceará.
A prisão e a liberação com medidas cautelares
Carlos Daniel Silva Queiroz foi detido sob a acusação de ocultar a propriedade de um veículo utilizando documentos falsos. O automóvel estava registrado em nome de seu avô, mas era de posse, uso e disponibilidade de Daniel, sendo inclusive encontrado na vaga de garagem de seu prédio. As investigações revelaram ainda uma declaração de residência falsa, afirmando que o avô morava no imóvel, informação desmentida pelo síndico.
Após a análise judicial, a liberdade de Daniel foi restituída, mas acompanhada de rigorosas medidas cautelares. Entre elas, estão a apresentação mensal à Justiça, a obrigação de permanecer em casa das 22h às 6h, o uso de tornozeleira eletrônica, a proibição de sair do país e a entrega do passaporte às autoridades. Além disso, ele deve informar à Justiça caso se ausente de Fortaleza por mais de oito dias, comunicar qualquer mudança de endereço e comparecer a todos os atos processuais para os quais for intimado.
O esquema de fraudes e o ex-prefeito foragido
O pai de Daniel, Bebeto Queiroz, ex-prefeito eleito de Choró, está foragido há mais de um ano. Eleito nas eleições municipais de 2024, Bebeto não chegou a tomar posse. Sua trajetória política foi marcada por controvérsias, incluindo uma prisão em novembro de 2024 por suspeita de envolvimento em fraudes ligadas a contratos de abastecimento de veículos da prefeitura.
Embora tenha sido solto no início de dezembro de 2024, após o término do prazo da prisão temporária, um novo mandado de prisão foi expedido poucos dias depois, por outros crimes. Desde então, as autoridades não conseguiram localizar Bebeto Queiroz. Em março de 2025, a defesa do ex-prefeito informou que se manifestaria apenas nos autos dos processos. A Justiça Eleitoral cassou a chapa liderada por Bebeto em abril de 2025, decisão mantida pelo Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) em agosto do mesmo ano, levando à realização de uma nova eleição no município em 1º de março.
A operação da Polícia Federal e o envolvimento de deputado federal
A prisão de Carlos Daniel é um desdobramento de uma investigação mais ampla da Polícia Federal. Um relatório da PF, datado de janeiro de 2026, desvendou um complexo esquema de negociação de emendas parlamentares, fraudes em licitações de prefeituras e financiamentos ilegais de campanhas eleitorais em diversos municípios cearenses. O grupo criminoso seria liderado por Bebeto Queiroz e pelo deputado federal Júnior Mano (PSB).
De acordo com a PF, Bebeto atuava como intermediário na destinação de emendas parlamentares do deputado Júnior Mano para prefeituras alinhadas ao grupo. Em troca, uma “taxa” que variava entre 12% e 15% do recurso era cobrada. As investigações apontam que diversas empresas, com contratos em prefeituras do interior do Ceará, eram utilizadas para desviar recursos, tanto para enriquecimento ilícito quanto para financiar campanhas eleitorais de aliados, inclusive por meio de compra de votos. Após a eleição dos aliados, essas mesmas empresas conseguiam novos contratos com as prefeituras.
A assessoria jurídica do deputado Júnior Mano, em nota divulgada na época, afirmou que a investigação da Polícia Federal “nada encontrou de relevante contra o deputado” e lamentou o “vazamento seletivo de informações sigilosas”. O relatório da PF destaca que a evasão de Bebeto Queiroz, que impede seu depoimento, “dificultando ainda mais sua defesa perante as provas colhidas e reforçando a ideia de que sua evasão está diretamente ligada à tentativa de obstrução da investigação e à sua reconhecida posição de liderança dentro da organização criminosa”. Um mandado de prisão contra Carlos Alberto Queiroz, o Bebeto, segue em aberto com validade para todo o país. Para mais informações sobre as operações da Polícia Federal, clique aqui.
O esquema, que a PF indica ter sido ampliado com a chegada de Júnior Mano, direcionava recursos para municípios estratégicos, visando a cooptação política e a manipulação de contratações públicas. Uma análise de 2025 da Controladoria-Geral da União (CGU) revelou que nove das dez empresas suspeitas envolvidas no esquema receberam cerca de R$ 455,5 milhões de prefeituras cearenses entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. A PF também encontrou uma lista com pelo menos 71 prefeituras do Ceará supostamente vinculadas ao deputado, com candidatos apoiados pelo grupo eleitos em aproximadamente 50 delas.
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