Uma inovação tecnológica desenvolvida por cientistas brasileiros está transformando a forma como pesquisadores localizam e estudam animais de hábitos noturnos, muitas vezes espécies raras ou ameaçadas de extinção. A utilização de drones equipados com câmeras térmicas tem permitido uma aceleração impressionante na detecção desses animais, reduzindo o tempo de busca em até 20 vezes. Essa ferramenta promissora, já em aplicação em diversas regiões do Brasil, promete um futuro mais eficiente para a conservação da biodiversidade.
O avanço, que permite identificar um animal em apenas 8 minutos, quando antes seriam necessárias 2 horas, representa um salto significativo para a pesquisa de campo. Além de otimizar o monitoramento de mamíferos arborícolas noturnos, como os porcos-espinhos, a tecnologia também se mostra valiosa em situações de emergência, como o resgate de fauna durante incêndios florestais.
Drones termais: a nova fronteira no monitoramento da biodiversidade
A pesquisa que culminou nesta descoberta é fruto de uma colaboração entre diversas instituições de ensino superior brasileiras, incluindo a Universidade Estadual do Ceará (Uece), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), além da empresa Seteg Soluções Ambientais. O estudo, que teve início em 2022 e levou quatro anos para ser concluído, teve seus resultados publicados este ano na prestigiada revista Global Ecology and Conservation.
A metodologia é relativamente simples, mas exige precisão e treinamento. Biólogos utilizam drones equipados com câmeras térmicas para realizar voos noturnos, preferencialmente na madrugada, quando a ausência do calor solar permite um contraste térmico ideal para a detecção de animais. As imagens capturadas são então analisadas para identificar as espécies e coletar dados para estudos mais aprofundados.
Desafios superados e o caso do porco-espinho-de-baturité
O grupo de mamíferos arborícolas noturnos sempre representou um dos maiores desafios para os pesquisadores. Sua vida em topos de árvores, em ambientes densos e de difícil acesso, tornava o monitoramento extremamente demorado e, muitas vezes, infrutífero. O biólogo Igor Gutierrez, autor principal do artigo, ilustra essa dificuldade com sua própria experiência.
Em um teste na Serra de Baturité, no Ceará – região onde o porco-espinho-de-baturité foi catalogado pela primeira vez em 2013 –, o primeiro voo com o “drone termal” resultou na localização de um animal em menos de dois minutos. “Isso foi impressionante, pois sabíamos da dificuldade de encontrar essa espécie, principalmente por se tratar de um animal que passa grande parte da vida no topo das árvores, em locais quase inacessíveis ao olhar humano, muitas vezes exigindo mais de 19 horas de busca a pé na mata para localizar um único indivíduo”, contextualiza Gutierrez.
A pesquisa comparou 198 minutos de voo com drone a 4.414 minutos de busca terrestre, detectando 18 indivíduos de três espécies diferentes. Essa comparação evidencia a eficácia e a otimização de tempo e recursos que a nova tecnologia proporciona.
Aplicações práticas e o potencial para a conservação ambiental
A versatilidade dos drones termais vai além da simples localização. Segundo Hugo Fernandes, coordenador da pesquisa, a tecnologia pode ser aplicada em projetos de conservação de espécies e auxiliar na tomada de decisões por órgãos ambientais. Um exemplo prático é a análise de fauna em terrenos com supressão vegetal autorizada.
“É muito comum animais arborícolas sofrerem acidentes nesse processo. Os drones vão permitir que eles sejam resgatados antes disso, garantindo a proteção animal e também economia de recursos despendidos para sua recuperação”, explica Fernandes. O professor Fabiano Melo, da Universidade Federal de Viçosa, um dos pioneiros no levantamento aéreo desta pesquisa e especialista em drones para conservação no Brasil, destaca o impacto positivo da ferramenta.
Metodologia de campo e o futuro da pesquisa
O estudo envolveu pesquisadores de diversos estados brasileiros, como Ceará, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com levantamentos realizados em fragmentos de Mata Atlântica. As missões de voo noturno com os drones foram conduzidas entre 17h e 22h, período de maior atividade dos porcos-espinhos, a altitudes de 10 a 20 metros acima do dossel das florestas.
Quando uma assinatura térmica era detectada, o drone se aproximava lentamente para evitar estresse ao animal, e uma câmera RGB era acionada para a confirmação visual da espécie. Todos os voos foram registrados em vídeo e fotografias para validação dos dados, permitindo o cálculo do tempo médio de identificação.
Apesar do alto custo inicial dos equipamentos, que varia entre R$ 70 mil e R$ 350 mil e exige treinamento específico, os cientistas acreditam que a tecnologia se tornará mais acessível com o tempo, impulsionada pela competição de mercado. O próximo passo da pesquisa é integrar os drones termais com inteligência artificial, desenvolvendo algoritmos de detecção e quantificação automática, o que promete otimizar ainda mais o trabalho de campo.
A inovação dos drones termais representa um marco na pesquisa e conservação da fauna brasileira, oferecendo uma ponte entre ciência, tecnologia e a proteção da biodiversidade. Para acompanhar de perto os desdobramentos dessa e de outras notícias relevantes sobre ciência, tecnologia e meio ambiente, continue acessando o News BV. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, aprofundada e contextualizada para você.