Foto: Claudiana Mourato
Foto: Claudiana Mourato
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Neste sábado, dia 20 de maio, a cidade de Crato, localizada na vibrante região do Cariri cearense, completa 262 anos de história. A data não apenas marca mais um ano de existência para este importante polo regional, mas também reacende o debate sobre a urgência em preservar seu valioso patrimônio arquitetônico. Em meio ao crescimento urbano e às transformações sociais, o desafio de salvaguardar as edificações que contam a trajetória da cidade se torna cada vez mais premente, mobilizando historiadores, arquitetos e a própria administração municipal.

Caminhar pelo centro de Crato é embarcar em uma jornada através dos séculos, onde fachadas, portas e robustas paredes de pedra testemunham a evolução de um dos primeiros assentamentos do Cariri. Antes de se consolidar como vila no século XVIII, a área era habitada por povos indígenas Cariris. A partir de 1714, colonizadores vindos da Bahia, Sergipe e Pernambuco começaram a ocupar as sesmarias, atraídos pela fertilidade do solo e pela paisagem exuberante, dando início ao processo de formação do que viria a ser a cidade.

Crato, berço do Cariri: uma história em cada fachada

A gênese de Crato é intrinsecamente ligada ao antigo aldeamento indígena, capitaneado pelos frades do hospício de Nossa Senhora da Penha. O arquiteto e pesquisador Waldemar Arraes explica que a transformação de aldeamento em vila e, posteriormente, em cidade no século XIX, seguiu rigorosas diretrizes da coroa portuguesa. Decretos do século XVIII estabeleciam a necessidade de organização urbana, influenciando a distribuição de terras e a construção de edifícios essenciais.

“A cidade nasceu a partir desse aldeamento. Depois se transformou em vila e cidade, no século 19. Existiam decretos da coroa portuguesa do século 18”, detalha Arraes. Ele acrescenta que as vilas deveriam ser ordenadas, com uma igreja, uma Casa de Câmara e Cadeia e um pelourinho, alinhadas para refletir o modelo português. “Os ouvidores, que tomavam de conta da administração das províncias, faziam visitas a essas vilas para ver se estavam de acordo com o que Portugal queria que parecessem”, complementa o pesquisador.

Embora muito da arquitetura original tenha se perdido ou sido modificada ao longo do tempo, o que restou ainda encanta. O historiador Iaré Lucas Andrade ressalta que a arquitetura colonial representa a mentalidade e a identidade de um período. “O Brasil se forma a partir de um olhar muito para fora. As elites locais se estruturam olhando sempre para o modelo europeu”, afirma, contextualizando a influência europeia nas construções brasileiras.

Marcos arquitetônicos: do colonial ao ecletismo ferroviário

Entre os símbolos mais marcantes da memória arquitetônica de Crato, destaca-se a antiga Casa de Câmara e Cadeia. Construída em 1877, no encontro da Praça da Sé com a Rua Senador Pompeu, este edifício neoclássico é o principal remanescente do período colonial. Hoje, o prédio abriga o Museu de Arte Vicente Leite e o Museu Histórico do Crato – J. de Figueiredo Filho, tendo sido tombado em nível estadual após servir como Prefeitura, Fórum, Junta Militar e Delegacia de Polícia.

Próxima à Casa de Câmara e Cadeia, a Sé Catedral Nossa Senhora da Penha é outro exemplar da arquitetura colonial. O que hoje é um imponente templo, com colunatas sóbrias e arcos bem definidos, começou como uma pequena capela de tapera, centro da catequese indígena. Iaré Lucas Andrade explica que a catedral reflete a busca da elite cratense pela modernidade europeia, diferenciando-se do barroco ostentoso de outras regiões. “A formação da identidade regional do Cariri tem, na cidade do Crato, uma espécie daquilo que os pesquisadores chamam de cidade-mãe”, pontua Andrade, reforçando a centralidade do Crato na região. A Sé Catedral está atualmente em processo de tombamento pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult).

Outro marco histórico é a Estação Ferroviária do Crato, inaugurada em 8 de novembro de 1926. Com um estilo eclético que reflete a transição arquitetônica da primeira metade do século XX, o edifício foi crucial para o desenvolvimento econômico da cidade. Após a decadência das ferrovias, a Estação fechou em 1989 e foi ressignificada como espaço cultural. Tombada pela Secretaria de Cultura do Estado, a estrutura, conhecida como Complexo da RFFSA, aguarda também uma avaliação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para tombamento. A superintendente do Iphan Ceará, Cristiane Buco, indica que o processo está adiantado e com parecer positivo, embora os trâmites possam ser longos.

Na Praça Siqueira Campos, o Cassino Sul Americano, com sua fachada eclética e molduras em arco abatido, é outro prédio que guarda memórias. Antigo cinema da cidade, hoje abriga um restaurante, tendo sua parte interna modificada, mas a fachada preserva detalhes da época. O edifício aguarda um processo de tombamento pela Secretaria de Cultura do Estado. O aposentado Raimundo Modesto de Brito, por exemplo, recorda com carinho os tempos em que frequentava o cinema com sua primeira esposa, evocando um passado de “gente feliz”.

O desafio da preservação e a memória em risco

Apesar da riqueza histórica, a cidade de Crato enfrenta a perda de seu acervo arquitetônico. A demolição e o abandono de prédios históricos são uma realidade preocupante, gerando alertas entre historiadores, gestores e arquitetos. Um exemplo notável é o imóvel onde residiu a comerciante e revolucionária Bárbara de Alencar, na antiga Rua Grande. Embora tenha sido palco de articulações para a Revolução de 1817 e seja um remanescente do primeiro ciclo de ocupação urbana, o prédio não possui mais as características da época, sediando hoje a Secretaria Estadual da Fazenda. Uma escultura em sua homenagem foi assentada em frente à antiga residência para recordar sua importância.

A falta de conscientização sobre o valor desses bens é apontada como um dos principais motivos para o esquecimento e a degradação. Esse cenário impõe um desafio contínuo para a manutenção da identidade cultural e histórica de Crato.

Iniciativas para o futuro: da virtualização ao almanaque didático

Para reverter o cenário de esquecimento e garantir que a memória arquitetônica de Crato seja preservada para as futuras gerações, diversas iniciativas estão em andamento. Um grupo de historiadores e arquitetos está desenvolvendo um trabalho de reconstrução virtual tridimensional do Centro Histórico, utilizando fotografias antigas, mapeamentos e dados históricos. Essa abordagem inovadora permite visualizar e estudar as edificações em seu contexto original, mesmo aquelas que já não existem fisicamente.

No âmbito municipal, o secretário de Cultura do Crato, Wilton Dedê, informou que a administração está iniciando a catalogação dessas estruturas. O objetivo é lançar um almanaque didático, uma ferramenta que visa educar a população sobre a importância do patrimônio e fomentar a conscientização. Essas ações, somadas aos processos de tombamento em andamento para a Sé Catedral e a Estação Ferroviária junto à Secult e ao Iphan, representam um esforço conjunto para salvaguardar a identidade de Crato.

A preservação da memória arquitetônica de Crato é mais do que a manutenção de edifícios; é a salvaguarda da própria história e identidade de uma das cidades mais antigas e significativas do Cariri. Os esforços em curso, que vão da catalogação à reconstrução virtual, são fundamentais para que as futuras gerações possam continuar a cruzar séculos de história em cada fachada e parede. O News BV continuará acompanhando de perto essas iniciativas, reforçando nosso compromisso com a informação relevante e contextualizada sobre o patrimônio cultural brasileiro. Para mais detalhes sobre o trabalho do Iphan na preservação do patrimônio, visite o site oficial do Iphan.

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