O Ceará enfrenta um cenário alarmante de crescimento da violência de gênero, com um aumento significativo nos casos de feminicídio e outras formas de agressão contra mulheres. Nos primeiros cinco meses de 2026, o estado registrou um salto de 46% nos feminicídios em comparação com o mesmo período do ano anterior, totalizando 19 vítimas. Os casos enquadrados na Lei Maria da Penha também apresentaram elevação de 4,1%, somando 10.926 ocorrências. Os dados, divulgados pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), acendem um alerta sobre a necessidade urgente de intensificar as ações de prevenção e combate a esses crimes.
A escalada da violência não se manifesta apenas nos números, mas em histórias que chocam a sociedade e expõem a brutalidade direcionada às mulheres. O aumento dos registros reflete uma realidade complexa, que pode indicar tanto uma maior incidência dos crimes quanto uma crescente conscientização das vítimas e da sociedade para denunciar, um passo crucial para romper o ciclo da violência.
Feminicídios Ceará: números que revelam uma realidade preocupante
Entre janeiro e maio de 2026, o Ceará contabilizou 19 feminicídios, um aumento expressivo em relação aos 13 casos registrados no mesmo período de 2025. Essa elevação de 46% é um indicador grave da persistência e intensificação da violência letal contra mulheres no estado. Paralelamente, os crimes enquadrados na Lei Maria da Penha saltaram de 10.487 para 10.926 ocorrências, um acréscimo de 4,1% de um ano para o outro.
Esses números não são meras estatísticas; eles representam vidas perdidas, famílias destruídas e um profundo impacto social. A violência de gênero, em suas diversas manifestações, continua sendo um dos maiores desafios para a segurança pública e os direitos humanos no Brasil, exigindo uma abordagem multifacetada e contínua.
Casos brutais que marcam o cenário da violência feminina
O período analisado foi marcado por episódios de extrema crueldade que ganharam destaque na mídia e na consciência pública. Em Quixeramobim, a jovem Ana Clara Antero de Oliveira, de 21 anos, foi vítima de uma tentativa de feminicídio brutal, tendo uma mão decepada e a outra semimutilada pelo cunhado, com o apoio do namorado. Ambos os agressores estão presos.
Outros casos incluem a morte de uma adolescente de 17 anos em Deputado Irapuã Pinheiro, após ser assediada por um homem que foi preso em flagrante. Em Itatira, outra adolescente, também de 17 anos, foi sequestrada, agredida e teve o rosto desfigurado pelo namorado, que posteriormente foi encontrado morto. Em Fortaleza, Francisca Claudene Rodrigues da Silva Assunção, de 51 anos, foi assassinada a facadas pelo ex-marido durante uma oração. Embora fora das estatísticas do período de janeiro a maio, o caso da manicure Thamires Moura Pinheiro, encontrada morta em 1º de junho na capital, reforça a urgência do tema.
Ações de combate e a rede de proteção do Estado
Diante do cenário, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) afirma que, por meio de suas vinculadas, realiza ações contínuas de combate, prevenção, reforço no policiamento e acolhimento às vítimas. A instituição destaca o fortalecimento da rede de atendimento e a ampliação do acesso rápido aos serviços de proteção.
O Ceará conta com duas Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) em Fortaleza e outras 11 unidades especializadas na Região Metropolitana e no Interior. Recentemente, foram inauguradas novas DDMs em Tauá (março de 2026) e Crateús (20 de junho de 2026), integradas às Casas da Mulher Cearense. Para municípios sem DDM, as denúncias podem ser feitas em qualquer unidade da Polícia Civil. Além disso, o Grupo de Apoio às Vítimas de Violência (Gavv) da PMCE, o Núcleo de Atendimento Especial à Mulher, Criança e Adolescente (Namca) da Pefoce e o sistema virtual de solicitação de medidas protetivas (mulher.policiacivil.ce.gov.br) são ferramentas importantes nessa rede.
A SSPDS também implementou a reestruturação de suas forças de segurança, sancionada em dezembro de 2024. Medidas como a descentralização da Ciops, a criação de células de Apoio aos Grupos Vulneráveis e de Combate à Violência contra a Mulher (ligadas à Coordenadoria Defesa Social – Codes), e a Coordenadoria de Articulação Intersetorial (Cointer) visam aprimorar a integração e a resposta policial. Na Pefoce, a reestruturação prevê novos núcleos e coordenadorias regionalizadas para dar celeridade aos trabalhos periciais.
Conscientização social e a complexidade da violência de gênero
Para Geórgia Oliveira Araújo, professora de direito da Universidade Regional do Cariri (Urca) e doutoranda na Universidade de Brasília (UnB), o aumento dos dados pode ter dupla interpretação. “Os dados podem representar o aumento da violência, mas também da conscientização social sobre o que se configura como crime e violência de gênero”, explica. Ela ressalta que mais mulheres estão se reconhecendo como vítimas e buscando apoio na rede de proteção.
No entanto, a pesquisadora alerta para a possibilidade real de um crescimento efetivo da violência, que parece se reconfigurar e incidir de forma cada vez mais preocupante. “Todas essas expressões de violência, toda essa crueldade que é direcionada às mulheres, é uma forma de manter a desigualdade de gênero e essa estrutura que quer manter as mulheres a partir das suas diferentes vivências raciais, de classe, de idade, de território, num lugar subalterno”, analisa Geórgia. Ela enfatiza a necessidade de rediagnosticar as manifestações da violência e investir em mecanismos de prevenção primária, além de políticas públicas baseadas em evidências e uma rede de proteção transversalizada em todos os níveis.
O combate à violência contra a mulher é uma luta contínua que exige o engajamento de toda a sociedade, desde a conscientização individual até a implementação de políticas públicas eficazes. Acompanhe o News BV para mais informações e análises aprofundadas sobre este e outros temas relevantes, garantindo acesso a um conteúdo de qualidade e contextualizado.