Um crime que chocou a cidade de Camocim, no litoral do Ceará, ganha um novo e complexo capítulo. O assassinato do vereador Cesar Araújo Veras, ocorrido em 28 de abril de 2024, e o ataque a outras duas pessoas em um restaurante, agora são reavaliados sob a luz de um laudo pericial. A Perícia Forense do Ceará (Pefoce) concluiu que o garçom Antônio Charlan Rocha Souza, acusado dos ataques, sofre de “Transtorno psicótico não orgânico não especificado”. A revelação, à qual o g1 teve acesso, introduz uma dimensão crucial ao processo judicial, levantando questões sobre a imputabilidade do réu e a natureza de seus atos.

O caso, que manteve a comunidade local em estado de choque, agora se aprofunda em discussões sobre saúde mental e justiça. O laudo, que integra um Incidente de Insanidade Mental, pode redefinir o caminho legal de Antônio Charlan, que está preso desde o ocorrido.

O ataque brutal e suas consequências

A tragédia se desenrolou em questão de segundos. Em 28 de abril de 2024, o vereador Cesar Araújo Veras, de 51 anos, chegava a um restaurante em Camocim quando foi surpreendido por um ataque a faca. Antônio Charlan Rocha Souza, garçom do estabelecimento, desferiu golpes que tiraram a vida do político e feriram gravemente o dono do restaurante, Euclides Oliveira Neto, de 55 anos, e o cliente Fábio Roberto de Castro Sousa, de 56 anos.

A brutalidade do ato, perpetrado com uma faca de cozinha, deixou marcas profundas na cidade. O vereador Veras, que presidiu a Câmara de Camocim entre 2019 e 2020, era uma figura pública conhecida e respeitada, e sua morte gerou comoção e indignação. A família do político, em um gesto de solidariedade em meio à dor, chegou a doar as córneas do vereador.

Transtorno psicótico: o que diz o laudo da Pefoce

O laudo da Pefoce é categórico ao apontar que Antônio Charlan apresenta um “Transtorno psicótico não orgânico não especificado” (CID-10 — F29). Segundo os peritos, esse quadro implicou em um “prejuízo total das capacidades de entendimento e de autodeterminação no período de interesse”. Em outras palavras, o garçom era “inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato que cometeu”.

A perícia detalha que o crime esteve diretamente relacionado a um quadro psicótico, caracterizado por delírios e alucinações. O próprio Charlan relatou ter ouvido uma voz masculina que o incitava: “Vai! Vai! Se até o Rei Davi matou, por que tu não pode fazer isso?”. Ele descreveu uma “pressão, como se houvesse uma enorme força externa controlando-o” e afirmou não se lembrar do ataque, sentindo “como se sua mente se apagasse”, só voltando a si já no carro, com sangue nas mãos e a faca utilizada.

Entre a inimputabilidade e a periculosidade social

Com base no laudo, a defesa de Antônio Charlan Rocha Souza ingressou com um Incidente de Insanidade Mental, buscando que ele seja considerado inimputável, ou seja, que não possa ser condenado à prisão em razão de doença mental. No entanto, a repercussão do laudo não é unânime.

O advogado Leandro Vasques, que representa a família do vereador Cesar Veras, reconheceu o trabalho da perícia, mas ressaltou a necessidade de um “aprofundamento da investigação acerca do real e efetivo estado de saúde mental do acusado”. Vasques enfatizou a “aguda e elevada periculosidade do réu” e a convicção de que ele “não possui, sob qualquer pretexto, condições de conviver em sociedade”. A família mantém seu compromisso com um desfecho processual que honre a memória do vereador e garanta a segurança coletiva.

O Ministério Público do Ceará (MPCE), por sua vez, já havia denunciado Antônio Charlan em junho de 2024 por homicídio e tentativa de homicídio, considerando que ele agiu de maneira a impossibilitar a defesa das vítimas e que a motivação foi fútil. A 1ª Vara da Comarca de Camocim abriu vistas à defesa, ao MPCE e à assistência de acusação para análise do laudo, um passo crucial para os próximos desdobramentos do caso.

Motivações em debate: assédio moral versus delírio

A investigação da Polícia Civil inicialmente apontou o suposto assédio moral sofrido pelo garçom no restaurante como motivação para o crime. O inquérito indicou que Charlan teria pesquisado termos como “funcionário pedindo demissão”, “desrespeito trabalhista” e “patrão desrespeitando funcionário” em seu celular antes do ataque. Além disso, buscas por “melancolia” e “tristeza permanente e profunda” também foram encontradas, sugerindo um quadro de sofrimento psicológico que, segundo a polícia, poderia ter sido gerado pelo desrespeito aos seus direitos trabalhistas.

No entanto, a família do vereador contestou a versão do assédio moral e apresentou novas imagens de câmeras de segurança. Esses vídeos mostram Antônio Charlan próximo a um colega amolando a faca horas antes do crime, e depois pegando o objeto sem que o colega percebesse, pouco antes de iniciar o ataque. O MPCE solicitou a inclusão dessas imagens no inquérito, buscando esclarecer a sequência dos fatos e a premeditação.

A complexidade do caso reside na intersecção entre as possíveis motivações externas, como o assédio, e o quadro de transtorno psicótico diagnosticado. Embora outros funcionários tenham relatado trabalhar “sob muita pressão” no restaurante, a ausência de desavenças prévias com as vítimas e o relato de delírios e alucinações no momento do crime adicionam camadas de incerteza sobre qual fator foi preponderante para a eclosão da violência.

O News BV continuará acompanhando de perto este caso, que levanta importantes discussões sobre justiça, saúde mental e a segurança da comunidade. Mantenha-se informado com nossa cobertura aprofundada e contextualizada sobre os fatos que impactam o Brasil e o mundo.

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