Destaques:
- Estados Unidos ameaçam intervenção unilateral na América Latina sob pretexto de combate a cartéis.
- Declaração do secretário de Defesa Pete Hegseth evoca o “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, gerando preocupação.
- Brasil e México defendem soberania, enquanto outros países da região estreitam laços militares com Washington.
Os Estados Unidos, em meio a tensões geopolíticas e ações militares no Oriente Médio, firmaram um acordo com 16 países latino-americanos para intensificar o “combate aos cartéis” na região. Contudo, a declaração do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, de que Washington está preparado para “agir sozinho” na América Latina “se necessário”, levantou sérias preocupações sobre a soberania das nações do continente.
A afirmação foi feita durante a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis, realizada na última quinta-feira (5) em Doral, na Flórida. Hegseth enfatizou a preferência pela ação conjunta, mas a ressalva sobre a unilateralidade ressoou como uma ameaça direta à autonomia dos países latino-americanos sobre seus próprios territórios.
A Doutrina Monroe e o “Corolário Trump”
A política expressa por Hegseth foi explicitamente vinculada ao “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, uma reinterpretação da doutrina de 1823 que reafirma a “proeminência” de Washington sobre as Américas. Incluída na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, anunciada em dezembro, essa política busca garantir “acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio” e “impedir que potências externas ameacem nossa paz e independência em nossa região comum”.
Historicamente, a Doutrina Monroe tem sido interpretada como uma justificativa para intervenções americanas na região, e sua reedição sob o governo Trump intensifica o temor de que o combate ao narcotráfico possa servir como pretexto para ações que desrespeitem a autodeterminação dos países.
“Ameaça gravíssima”, alertam especialistas
Para o professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra, Ronaldo Carmona, a fala de Hegseth constitui uma “ameaça gravíssima”. “Pois sob Trump, as ameaças costumam se materializar (vide Venezuela e agora Irã). Ao evocar a Doutrina Monroe, o faz propondo expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, em uma ameaça explícita à liberdade de ação das nações da América Latina”, comentou Carmona à Agência Brasil.
O pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) acrescentou que a questão do ingresso de drogas nos EUA deveria ser uma tarefa interna ao Estado americano. Ele argumenta que Washington tenta “latino-americanizar” o problema como um “pretexto” para intervenções abertas no continente, citando o caso da Venezuela, onde o combate aos cartéis foi inicialmente a justificativa para o sequestro do presidente Nicolás Maduro, antes de a agenda se voltar para o comércio petroleiro.
“É difícil imaginar que as forças de segurança americana não tenham meios para proteger autonomamente suas próprias fronteiras”, completou Carmona, sublinhando a percepção de que a militarização do combate às drogas pode ser uma forma de vincular os países latino-americanos aos desígnios estratégicos de Washington, “impedindo-as de manter relações abertas com os vários polos de poder mundial”.
“Trata-se de um constrangimento à soberania inaceitável para a América Latina.”
Reações e alinhamentos na região
A Conferência, sediada no Comando Sul dos EUA – setor das Forças Armadas responsável por monitorar a América Latina e o Caribe – contou com a presença de representantes da Argentina, Guiana, Bolívia, Equador, Paraguai, Chile e Peru, da América do Sul, e de Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago, da América Central.
O Ministério da Defesa da Argentina informou que, além de uma declaração conjunta não divulgada, foram firmados acordos bilaterais com os EUA, permitindo “adaptar o marco jurídico de cada nação”.
Brasil e México defendem soberania
Os governos do México e do Brasil têm mantido uma postura de defesa da soberania, insistindo que o combate aos cartéis na América Latina deve ser feito respeitando a autonomia dos países da região.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, destacou que a parceria com Washington no combate às drogas deve ser pautada pela “coordenação e sem subordinação, como iguais”.
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, incluiu o combate ao narcotráfico na agenda de negociações com o governo de Donald Trump, mas o pesquisador Ronaldo Carmona ressalta que o Brasil sempre diferenciou as atividades policiais, para combater o narcotráfico, das atividades de Defesa, ligadas à soberania territorial. Os EUA, por sua vez, tentam militarizar esse combate.
“O Brasil precisa urgentemente, como uma prioridade nacional, enfrentar com todas as energias, a começar das forças de segurança, as organizações criminosas brasileiras, até para não oferecer pretexto a Washington de utilizá-las com fins de ameaça à soberania brasileira”, alertou Carmona.
Colômbia e o Pacto pela Vida e pela Paz
O presidente colombiano, Gustavo Petro, reagiu à declaração estadunidense, afirmando que os EUA “não precisam agir sozinhos para acabar com os cartéis de droga, pois não saberiam como fazê-lo bem. Para destruir os cartéis da máfia, precisamos nos unir”.
“Se alguém está interessado em destruir os cartéis, são a Colômbia e a América Latina, onde milhões de pessoas foram assassinadas e onde a democracia foi destruída em regiões que vivem sob o terror”, disse Petro. “Portanto, a aliança contra o tráfico de drogas é um Pacto pela Vida e pela Paz, e estamos prontos.”
Equador e Paraguai estreitam laços
Em contraste, Equador e Paraguai estão entre os países que mais têm estreitado relações com Washington sob o argumento de combate ao narcotráfico. Um dia antes da Conferência na Flórida, o Senado do Paraguai aprovou um acordo com os EUA que prevê a presença de militares americanos no país com imunidade penal para operações, um projeto que ainda aguarda aprovação da Câmara dos Deputados.
A complexidade da situação revela uma América Latina dividida entre a necessidade de cooperação no combate ao crime organizado e a firme defesa de sua soberania frente a possíveis intervenções externas, reavivando debates históricos sobre a influência dos Estados Unidos na região.